quarta-feira, 24 de março de 2010

De pé!

Onde estás que não te reconheço? Que fizeram de ti?
Só te inculpaste de ter um coração vadio
Apenas anelaste por encontrar um abrigo
Mas não contavas com tanta vilania!

Quanta dor te aflige agora!
Que desespero se apodera de ti!
Mas onde estão as tuas forças?
Roubaram-te a coragem também?

O mais assustador é saber que tu não sofres só.
A humanidade é solidária em padecer na solidão.
Olha em volta!
Mira a agonia de outros como tu, que choram para dentro.

Tuas lágrimas caem por si, mas se unem às outras
No oceano da tristeza comum da dor privativa.
Mas olha de novo! Desta vez, para cima! E ouve:
Há passos nas nuvens!

Tu não gozas do pioneirismo do coração partido.
Outros caíram como tu e estes à tua volta
E prantearam uma dor sem limites, cegos de tormento.
Mas onde estão agora?

Onde estão seus corpos tombados pelo desespero,
Suas almas agrilhoadas no cárcere da solidão? Onde?
Que foi feito daqueles corações despedaçados e humilhados,
Cujos sonhos esvaeceram - ruínas de um império nunca havido?

Eles se ergueram!

Também tu conseguirás fazê-lo!
Não esperes sentir o baque no chão, para te levantares!
Nesse abismo em que mergulhas, não há fundo que te baste:
Só há esta queda perpétua, até que te canses e te ponhas de pé!

Na vida, todos nós apanhamos como Rocky.
Perdem-se as contas das pancadas recebidas
Mas de algo te asseguro: aguarda o sino!
Estarás de pé a gritar o teu amor pela vida!

Porque teu corpo se tomba em nocaute
Mas teu espírito dança como Ali.
Esquiva-se, pula, cruza todo o ringue
E bate ferozmente como Gandhi!

Essa é a tua desforra! A tua vingança!
Tu não és como teus inimigos!
Quebrem-se teus dentes – sorri de volta!
O sorriso hemorrágico do perdão!

Quebrem-se teus braços! Que importa?
Espanca aos beijos! Mata de ternura!
E se te levarem as pernas, não te abales.
Paira acima do despeito e da mágoa!

Porque é só isso que terão de ti:
O gosto ferroso do teu sangue
Mas não o da tua derrota -
Nem física ou moral!

Porque tu padeces da loucura irracional pela vida!

E aos teus inimigos, então, oferece-lhes um aviso:
Que te observem agora de joelhos, pois a visão é breve.
Tão logo te ergas e paires no ar, que te mirem dos pés a sola:
Em letras apagadas verão os próprios nomes gravados -

O único vestígio da chaga que hoje te devora.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Ah! No meu tempo...

Queria viver no tempo a que pertenço,
Quando o mundo ainda não era de concreto,
Os carros tinham vida e quatro patas
E cada chapéu, nas ruas, se saudava.

Quanta falta me faz esse tempo que não recordo!
Tudo hoje é tão agressivo e plano!
Cadê o charme do mundo? Onde o glamour?
Só o que vejo é máquina, carne e pressa.

Deixaram para trás as flores e o pôr-do-sol,
Ofuscaram as estrelas com luzes fabricadas,
Erradicaram da Terra o meu romantismo.

Ao fim de cada dia só me resta a solidão de suspirar,
Aguardando as damas do céu para a valsa prometida,
Um fóssil cujo tempo não é quando – já foi sem o esperar.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Daydreaming

No intervalo de um olhar
Ela me veio como um sonho,
Uma visão de um oásis,
Misterioso e concreto devaneio.

E tão logo a vi, presto embarquei
Na caravela abstrata das almas,
Rumo à terra que pronta me veio
Mas que digo que é minha.

Aqui é meu lar, meu feudo.
Mundo de magia e sonhada beleza,
Onde, com ela, faço como quero:
Admiro, conquisto, me caso e deliro.

E reino tão forte e terrível – Ivan!
E tão doce e fiel – o Cristo!
Que meu nome é por todos saudado
E por ela meu ser é amado.

Sou eterno. Imutável. Invencível...

Mas o que é isso?
Murcham-se-me as flores do jardim!
Cada pétala desfeita em nada!
Que vil praga és tu que me atacas?

Do palácio tremem as colunas,
As paredes vacilam e se inclinam,
Mas nada desaba.
Tudo se aniquila.

Oh, fugaz agonia!

Por que me arruínas, catástrofe enevoada?
Por que me roubas de meu trono até os escombros?
Por que me trazes de volta e a fantasia me levas?

Que me resta?

O que de mim resta?

A leveza do século que sufoca,
O peso do ano que nem se vê...

O que me resta é a vileza!
A tirania do real que não tolera,
Nem mesmo se onírica, a grandeza
E me rouba do delírio só para dizer:

“Nem sonhando o tempo te pertence!”

E da mulher que comigo foi rainha,
Fica só um quadro que se move,
Uma lembrança viva de um tempo morto,
O amor de uma vida, cujo nome nem sei.