terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Olhar da Poesia

Hoje encontrei olhos de um verde translúcido. O sol trespassava aquelas contas e devassava profundezas que me convidavam a um mergulho. Olhos de Caribe. Senti a pele arder, temperada pelo sal do mar.

Também me perdi a contemplar olhos de jade bruta, mas que se tornavam esmeraldas quando o rosto se lapidava com um sorriso. Preciosa heresia garimpar aquela riqueza. Cobicei, admirei. Desejei possuir aquelas jóias e com elas ornar minha vida.

Mas vi grandes olhos azuis, banhando uma pele branca, de helênica sedução. Olhos de Egeu. Fui carregado pela maré, perdido com o barco do desejo, encantado pelo mistério do azul profundo daquela jóia. Abandonar-me em tamanha beleza poria em risco a minha própria alma... E o que mais nos convida a um salto que o abismo?

É, todo olhar de mulher guarda um canto de sereia, o brilho da ambição e a luxúria do mistério.

E quanto ao negror de meus olhos, o que guarda? Não posso afirmar.

Mas eu queria mesmo é ter olhos de poesia. Aqueles que devassam a escuridão em torno da luz do espírito.

Ter um ímã de beleza. Enxergar a sutileza das menores coisas. Nenhuma folha caindo é só a queda de um corpo. É o parto de um outono e a saudosa memória daquela primavera.

Ver além. A mais. A fundo.

Dar sentido ao mundo, mesmo que perdendo a lógica na profundeza de um sonho.

Contar a idade em suspiros. Soprar as velas da saudade. Viver cada segundo de amor, à beira da solidão.

Romper a ilusão objetiva e, em espírito, inflado de paixão, roubar as asas dos anjos e me ajoelhar, beijando os pés de Deus.