sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Despojos

Não sobrou muita coisa
Apenas o aguçar de ouvidos
À espera que um anjo (que se importe mesmo!)
Venha cochichar algum conforto

Mas somos ecos para um tempo surdo
Perdidamente loucos desde o alvorecer
De uma vida que se dobra para a luz
Sem jamais lograr fugir do ocaso

Invariavelmente à procura de um sentido em si:
Nada mais que a cíclica tragédia dos iludidos
Aqueles que se olham de relance e cismam de ver
Algo de diferente - uma unicidade pobremente arranjada

Enquanto não passam de almas comuns
(Se é que é possível ser alma e comum)
A nadarem sempre afoitas das profundezas
Do abismo que alberga os moribundos

Em direção à epifânica superfície
Onde mora a indiferença do universo
Que lhes recebe com um terno acariciar de cabelos
E os empurra brutalmente para baixo

terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Montanha

Lutamos tão ferozmente pela vida
Buscando alimento, amor, esperança
Mas quando a batalha enfim cansa
E nos sentamos à beira da estrada
É que chega a luz

Não nos enganemos
A maior dificuldade é entender na vida
Que o mundo gira à nossa revelia
Obedecendo a leis que não fizemos
E das quais vira e mexe discordamos

Em horas tais
Por mais que façamos no bem
E nos concentremos de todo nesse fim
Brotando na alma afinal a devoção, a virtude e a fé
A montanha alheia a tudo lá permanece

O que me resta é crer que esses montes
Não se derrubam, nem se evitam: não se mexem!
Tem que passar mesmo é por cima
Que é compreendendo pedra a pedra
Que só e finalmente a gente cresce
Foi o tempo em que eu fechava os olhos
Costurava uma gaivota com o próprio tempo
E do espaço rasgava o céu pra que ela voasse bem

As horas escorriam por entre meus dedos
Que se divertiam enquanto eu pulava na chuva, corria atrás de bola
Caía de amores por quem nem me conhecia

E sabia de tudo!
Desafiava o que fosse preciso e o impreciso era eu mesmo
Que de tão ocupado com a vida sequer sabia o que era a vida

Capitão de um barco ao largo sem espias ou velas nem leme
Filhote querido de algum anjo
Que de tanto amor se divertia só de olhar

Mas a ferrugem dos anos corroeu-me tudo
Levou de mim toda aquela sabedoria e me deixou
A fórmula da razão e a dureza do esquecimento

Só que a alma não se rouba e nem se vende
E é nela que me dói sempre que possível
A saudade que o anjo tem desse tempo de criança

Claustrofobia

Angústia sem explicação
Presente como a alma
Ferindo como lâmina
E o pior é o motivo: nada
Um repente como fome
Voracidade que não se define
Apenas diz do que não é

E se misturam haustos de luxúria
Impulsos de brutalidade
Um vácuo de pulmões cheios de uma
Vida algo quase irreal, onírica
Onírica tal e qual a própria palavra
Um mero onanismo gramatical
Mas presente

Solidamente presente
Que sobe pelas veias
E explode pela alma adentro
Uma angústia de condenação
A força que enfim submete o preso
No instante exato em que ele
Deixa de riscar a parede

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O Cofre

Lá no canto (bem no canto) da minha solidão
Jaz esquecida e empoeirada uma velha caixa de sapatos
Repleta de sorrisos e sussurros
Corpos magnéticos e abafados gemidos

E alguns gestos singelos também
Que de tão despretensiosos pararam a Terra
Ou a fizeram andar mais depressa
Desgovernada

Enigmas
Inevitáveis pausas na vida
Tesouros em que ninguém bota preço
Ou tempo

Mas lá no fundo
Sob todas as joias do acervo
Estamos eu e você - escondidos
Pairando no olhar um do outro

Aquele momento em que roubamos a eternidade
E a enterramos no quintal do coração

quarta-feira, 20 de março de 2013

Considerações



A noite já se entrelaçou ao dia
O silêncio vai tomando corpo enquanto
A alma se recolhe a meditar

Cada coração que bate na Terra agora
Padece de alguma dor
Quantos sonhos habitam o espaço misterioso
Que se alonga além dos olhos?

As ilusões desfeitas de hoje são as cinzas
Que vão fertilizar o solo das futuras realizações?

Há um sentido em tudo. Tem que haver
Mas permanece escondido, a fim de que te
Animes a encontrá-lo sozinho

É isso o destino? Fatalidade?
Fragilidade

O ser humano é a folha que se vê árvore
Mas cai à toa
E se deixa levar pelo vento
Ao sabor das circunstâncias

E quando a hora chega e ela chega para todos
Quando a lágrima irrompe como a única ação possível
Eu-homem, tragado pelo movimento do universo
Indago se não sou menos que a folha

Apenas uma idéia solta pelo ar

To com saudade da poesia




Acho que é o meu real refúgio
O abrigo da alma sonhadora
Trincheira de um coração desiludido
Que bate ainda e não desiste - tão triste!


Esquecido por um tempo que já não é mais
Época perdida na infância da alma
Quando ainda o universo era um mistério
E mostrava, o seu infinito, um tudo feito de segredos


Sinto falta de quando era mais possível que real
A esperança longe da Física
A fé pulsante em estrelas vivas


E tudo, absolutamente tudo - eu inclusive
Era um fruto da fantasia de um menino-deus
Pulando e brincando feliz no jardim da vida

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Armadilha

Que ingenuidade a do coração novo
Feliz por encontrar uma lembrança querida
E nela brincar novamente, pulando
As páginas como se estivesse na pracinha

Mas havia uma armadilha
Tropeçou e caiu o pobre do coração choroso
Abrindo novamente a velha ferida
Essa maldita casca – sempre fina!

O que se pode fazer agora, coração amigo?
Nem o tempo ainda te abandonou dela
E a saudade inteira logo te deu o bote

Ah, é preciso coragem para amar de longe, meu amigo
Sabendo que ela tem e terá outros, mas o teu é um amor
Inigualável! Que de tão infinito é sempre belo e doloroso