sábado, 17 de outubro de 2009

No Tribunal

No Tribunal

Terrível é a dor da consciência ferida. Verdugo dos mais cruéis, espera que as luzes se apaguem, que as vozes silenciem e que tudo à volta fique em paz. E só então, a tortura começa.

Como um disco arranhado no fundo da mente, revivemos o ato culposo, à guisa de libelo acusatório. Réu, promotor, advogado de defesa... A cada instante, assumimos um papel distinto no próprio julgamento, inconscientemente imaginando se a toga do magistrado não nos deveria ser ofertada.

Condenarmo-nos? Provavelmente. A jurisprudência para o nosso caso é sempre desumana. Mas a que pena? Aí mora o abstrato. E é nesse ponto que o julgamento se interrompe. A defesa não chama outras testemunhas e nem mesmo reapresenta sua tese. Em vez disso, permite-nos enfrentar a argúcia e a insaciável fome da promotoria. Só nós, o réu, contra nós mesmos, o promotor.

Preciosos e doentios são os minutos que perdemos remoendo os erros. De maneira alguma, as pegadas serão refeitas. Os passos já foram dados.

Mas nossas ações devem ser entendidas como edificações. As positivas foram trabalhadas em concreto e são perenes, devendo fazer parte da paisagem mental. Um belo fundo no quadro da vida.
O erro, porém, é um castelo de areia, a ser demolido pela vaga do amanhã. Deixemos a obscuridade do ontem perecer ante o sol que se ergue.

Negligenciar uma falta é correr o risco de repeti-la. Mas apegar-se a ela é recusar-se uma nova oportunidade. Perdoar a si mesmo e decidir-se a não mais trilhar aquela senda espinhosa: tal a sentença.

Começar de novo é uma lição que o dia nos ensina silenciosamente.
Compreendamos a própria situação de seres em eterno aprendizado e procuremos extinguir tão-somente o erro futuro, educando o réu em paz.

O veredito? O futuro é sempre inocente.

Caso encerrado.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Adeus

(…) But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
William Butler Yeats (He Wishes for the Cloths of Heaven)

Quem já amou sabe que esse é o mais denso poema que jamais foi escrito - adeus! E pára por aí. Nada de rimas, quartetos, tercetos, alexandrinos... Só adeus(!) e sentimento.
Ah, mulher! Com teus olhos se vão a doçura e o mistério. Não mais a marola que me banhava e fugia. Não mais o perfume. Como a rosa que murcha ao peso do tempo, também tu secaste e me deixaste apenas os espinhos.
Chora, alma ferida, chora...
Mas o que faço com a vida que não mais viverei? Com os filhos que não tive? Não seria crime enterrá-los, tão jovens? Crueldade é o teu nome!
Mas sei bem que a culpa não te pertence. Afinal, não foi tua a invenção do amor. Mas foi nossa a tolice de amar. Foi nossa a ousadia da felicidade. Quanta ofensa cabe em um afago? Todo coração que ama faz jus ao castigo. Não se deserta impunemente da solidão. Leveza de espírito é sonegação de lágrimas à vida.
Porém, tudo se paga.
Então vai de uma vez! Que a dor assuma logo o teu posto! A advertência de Yeats foi justa, mas ignorada - meus sonhos foram esmagados sob teus pés! Os planos eram apenas ilusões. Farsas montadas para o divertimento alheio. Findo o espetáculo, vai-se a magia e ficam apenas os atores.
Mas quem ama e não sofre? E quem vive sem amar?
Meu peito pode estar ferido agora, mas o tempo também é implacável com a dor. Foi só o amor que pereceu. Estou vivo. A ferida irá se fechar. Nome nenhum causará comoção alguma. Nem música, filme, lembrança. O mar do amanhã destruirá toda edificação desabitada.
De tudo, enfim, só me restará o teu dorso, vazando com a maré.
Adeus.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Perdão

Chove lá fora. O tamborilar dos pingos parece uma canção de ninar.
Há horas, um menino rondava uma praça de alimentação. Queria vender canetas.
Seus cabelos molhados se mesclavam aos olhos sem vida.
Faltam três dias para o Dia das Crianças.
"O dinheiro não adianta. Não muda nada..."
"Compre uma caneta e ele nunca irá à escola".
O menino olhou em volta. Pessoas secas e bem vestidas sacodiam a cabeça negativamente, enquanto degustavam um lanche com que ele costumava sonhar. Tanta comida e seu estômago roncando.
Ninguém o acolheu. Todos se mantiveram fechados em suas roupas secas. Cabisbaixo, ele deu mais uma volta, antes de ir embora com a bolsa cheia de canetas.
Ah, criança! Se tu soubesses quão dura é a nossa vida... Nossas roupas estão secas, mas a alma está enlameada pelo descaso. Trazemos o estômago cheio, mas o peito, por vezes, vazio. Tu careces de comida. Nós, de sentimentos. Nossos olhos - tua pouca idade não permitiu que reparasses - são opacos como os teus.
Vai em paz. Sobrevive. E, se possível, perdoa-nos, pois não sabemos o que fazemos.

Ah, sim. Feliz Dia das Crianças...