sexta-feira, 29 de outubro de 2010

P.S.:


Rio de Janeiro, 27/10/10.

Olá!

A viagem terminou. Foram vinte dias intensos e, às vezes, antagônicos. Cheguei a pensar em um retorno antecipado. Depois, já queria planejar as próximas férias.

O certo é que a Europa, com todas as suas cores, merece uma visita durante a primavera. Se o amarelo-avermelhado já fez do outono uma obra-prima, a estação das flores é uma grande promessa.

Contudo, antes de assumir de vez o fim das férias, gostaria de resgatar algumas curiosidades.

- Após a primeira noite em Bruxelas, acordei com uma ferida no lábio inferior. Corri para a farmácia mais próxima. O homem de trás do balcão observou-me com a testa franzida e, usando um inglês afrancesado, perguntou-me o que era aquilo.
Devo dizer que a ferida não é nenhuma novidade. Já nos encontramos antes e, segundo minhas observações, ela precisa de duas condições para eclodir: a primeira é que eu esteja em um lugar frio; a segunda, que eu viaje sozinho.

Portanto, quando o farmacêutico me lançou aquela pergunta, nem hesitei: “É praga de mulher. Viajei sozinho”.

Para minha surpresa, o homem sorriu e me ofereceu uma caixinha amarela, contendo um remédio desconhecido. Levou-me seis euros e me recomendou usar o composto de 3 a 4 vezes ao dia. Por fim, avisou: “Comporte-se”.

A maldição resistiu bravamente até a chegada a Praga (!). Mas é claro que me comportei o tempo todo. Se a mandinga preventiva já foi tão resistente, a repressiva poderia ser fatal.

- Em Hamburgo, após falhar na busca por uma cabine telefônica, encontrei um pub muito simpático, incrustado na Reeperbahn. Era um bar dedicado ao rock n’ roll.
No palco, uma banda cover do AC/DC lançava gritos pelo ar. Muito bom!

A clientela era bem eclética: alguns das antigas e outros iniciantes. Mas quase todos em harmonia. Jovens e “coroas” tatuados derramavam jarras de cerveja, ao som de Highway to Hell.

Preso à veracidade que deve imperar neste relatório, assumo ter sido assediado por uma animada freqüentadora. Mas calculei que tivesse a idade da minha mãe.

Enfim, o bar era muito animado e seguro. Uma bartender de 1,80m, cheia de tatuagens, empurrou um chato para fora. Mãos no colarinho dele e olhos predadores – moça feroz! O bêbado não teve chance.

O único porém do lugar é que o cigarro estava em toda parte. Quando não pude mais respirar, tive que ir embora prematuramente.

- Copenhague é muito interessante mesmo. Ao fim do expediente, homens e mulheres de negócios vão para casa em cima de suas bicicletas. Ternos, saltos altos, maletas... e as bikes! Radical. E com direito a hora do rush.

- Praga é uma cidade cinematográfica. Tom Cruise lá estava em sua Missão Impossível 4. Passei em frente ao local em que Vin Diesel e Asia Argento enfrentaram um sniper, em Triplo X (foi na Municipal House). E ainda descobri que outros filmes, cujo roteiro nem fala de Praga, também foram rodados lá. Como exemplos: Passaporte para a confusão (Eurotrip), que foi todo realizado na cidade, e Identidade Bourne (em um parque na suposta Zurique, logo após fugir de um guarda, Matt Damon corre pelos arredores do Rudolfinum).

Ah! Um canadense que eu conheci era jogador de futebol profissional. Quando atuava nos EUA, teve a chance de jogar contra o Romário. Como prova de que realmente conhece o baixinho, o amigo relatou: “Ele ficou parado por 89 minutos. De repente, fez um gol”. Alguém duvida?

- Em Viena, encontrei uma adolescente notável. Bonita e bem alegre, conquistou-me por um pequeno detalhe: usava um gorro que tinha a forma da cabeça de um husky siberiano. Lembrou-me Luna Lovegood e o leão da Grifinória. Nota dez!

Bem, é isso, companheiros. Há muito mais o que dizer, mas vocês terão que explorar a minha memória pessoalmente.

Para encerrar, digo de coração: o melhor de viajar é a volta para casa.

Obrigado, pátria amada, por me receber novamente em seus braços.

Até logo!

P.P.S.: Que soem as gaitas de fole! Um bravo guerreiro tombou!
Ferido em combate, ficou ao meu lado até o fim. Contudo, perder uma perna é mortal para qualquer tripé. Mexe com sua essência.
Adeus, meu amigo! Tivemos bons momentos juntos. Descanse em paz.

Museu do Judaísmo

Praga, 18/10/10

Visitamos o museu do judaísmo e tive que deixar a ocasião registrada de forma particular. É um museu simples. Não possui muitos objetos preciosos, caracterizando-se basicamente por ter nomes nas paredes. Nomes e datas.

Vejamos o caso de Adolf Blum (12.III.1905 / 15.XII.1943). Quem foi esse homem? Quem foram seus pais, seus filhos? O nome dele está no meio de milhares de outros, seguidos de datas extraídas de um período macabro da nossa história.

É um museu do holocausto.

A segunda parte da mostra é repleta de pinturas e desenhos infantis. Em uma vila tcheca, mais conhecida como Terezín Ghetto, funcionava um campo de transição para um lugar que dispensa apresentações: Auschwitz. E em Terezín, havia uma ala infantil, como em muitos outros campos de concentração espalhados pela Europa nazista.

O que torna o Ghetto interessante é que os nazistas o utilizavam como propaganda. Filmavam as crianças estudando e se divertindo, a fim de mostrar para o mundo que eles cuidavam bem dos judeus. A realidade era bem diferente.

A austríaca Friedl Dicker Brandeisová (30.VII.1898, Viena – 1944, Auschwitz), preocupada com a situação das crianças, resolveu iniciar um trabalho de catarse por meio de pinturas e desenhos. Fazia milagres para conseguir papel, lápis, carvão – tudo que fosse útil em artes plásticas – e distribuiu para os meninos. A orientação era deixar sair o que lhes viesse à mente.

Em tempos claustrofóbicos, aterrorizantes, a maioria dos desenhos mostrava cenas de alegria, brincadeiras, o dia-a-dia nos dormitórios, janelas abertas, trens partindo... A felicidade e a esperança resistiam ao terror, abrigadas nos corações mais jovens.

Mas veio a proximidade da paz. E a noite é mais escura logo antes do sol nascer. Com a derrota à vista, os homens da suástica iniciaram sua queima de arquivos.
Inspirada por algum anjo, a austríaca reuniu todos os desenhos que encontrou – cerca de quatro mil, guardou-os em malas e os enterrou em Terezín. Logo depois, ela mesma foi para Auschwitz.

As pinturas de esperança, guardadas pela coragem dessa mulher, foram o único registro da existência de milhares daquelas crianças, cuja estrondosa maioria também partiu para o campo da morte. Menos de uma centena escapou.

Milena Deimlová (09.XII.1932 – 26.XI.1942 – 23.X.1944) fez um desenho sobre o dormitório feminino. Contudo, o que mais me chamou a atenção foram as datas: nasceu em 32, foi para Terezín em 42 e foi executada em 23 de outubro de 1944, quase completando doze anos.

Em 23 de outubro de 2010, estarei voando para o meu Rio de Janeiro e Milena, há 66 anos, encontrava o suspiro final.

Milena e Adolf,

Não há palavras que diminuam a monstruosidade que fizemos. Todos nós.

O nazismo foi só a máscara do demônio que vive no peito dos homens. Ele se alimenta do ódio, da intolerância, mas sobrevive graças à covardia e à omissão.

Deixamos vocês morrerem nas mãos dos nossos monstros.


Ao meu lado, uma canadense estava arrasada: “Pensar que isso ocorreu chega a me enlouquecer”.

O que ela parece não saber é que isso ainda ocorre todo dia.

A suástica de hoje é a fome. A farda negra é envergada pela miséria, pelas epidemias, pelas guerras civis e suas limpezas étnicas.

Adolf e Milena continuam sendo executados nos campos de concentração da África, da América Central, do Brasil. Crianças ainda trabalham como escravas e, não raro, no submundo da depravação. Pais vêem seus filhos definharem ou serem brutalmente assassinados. Esposas e mães são violentadas. Muitas vidas são perdidas.

E isso ocorre hoje! Agora!

Chega a enlouquecer a mente presa nas tenazes da cegueira, da omissão. Mas o Führer continua na Terra, onde sempre esteve, à sombra de nossos olhos fechados.

Milena, Adolf, somalis, etíopes, congoleses, haitianos.

O sangue deles é derramado pela injustiça que governa os homens. Dormimos vidas inteiras, ocupados com carros, casas, moda, enquanto o terror ainda rasteja pela Terra.

Que cada um faça o que e como puder. Nossos olhos não estão mais fechados, mas nossas mãos precisam se mexer.

Pois até quando deixaremos a esperança morrer nos corações infantis? No pranto de pais e mães?

Até quando crianças vão sonhar com brincadeiras, enquanto vivem tormentos infernais?

Cuidemos dos nossos filhos, da nossa família. Aqui e ao redor do globo. Não há nada mais digno e urgente a fazer.

Cuidemos dos nossos.

Enquanto a omissão lançar um véu sobre nós, a insanidade reinará sobre a Terra.

Milena foi executada. Adolf também.

Milena e Adolf.

Que esses nomes sejam mantras de força em nosso espírito. Um hino contra o mal da humanidade. Já é hora de cessar tanta loucura, ou vidas continuarão caindo aos nossos pés.

Deus nos ajude! Mantenha nossos olhos bem abertos, para que o sangue não manche nossas pálpebras. E nossas almas.

A toda vítima da indecência, da selvageria e da crueldade: perdão! Eu permiti a sua dor. E ainda permito.

Mas finjo que não vejo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Viena


19/10/10

Hamburg, DE.

Morgen!

De volta à Alemanha. Mais uma vez, Hamburgo me recebe de braços abertos. Contudo, ouso dizer que Viena me cativou platonicamente. Cidade com gosto de retorno.

Passei uma tarde por lá e fiquei boquiaberto com os grandiosos monumentos e construções. Se em Praga prevalece a atmosfera romântica e antiga, em Viena você tem um ar de império.

O povo nas ruas parece bem simpático. Os atendentes de guichês também (coisa rara no mundo todo). Sempre que precisei de informações, fui mais que bem servido.

Bom, cheguei por volta das 13 horas e parti logo para as providências básicas: mapa e bilhete de metrô. Depois, rumo à batalha.

No meu bolso, indicações de pontos interessantes para serem conhecidos:
Donauturm (torre de TV); Prater (parque); Schönbrunn Schloss (um palácio); Karlsplatz; e provar um apfelstrudel e um wiener schinitzel.

Adicionei à lista a staatsoper e a stephansplatz (onde existe uma belíssima catedral).

Tentei cumprir os itens na íntegra, mas confesso minha derrota. Era uma tarde de outono em Viena: 9 graus e o dia escureceu rapidamente. Cortei a torre e o parque. Também não encontrei o wiener schnitzel e não havia ingressos para a staatsoper. Mas vamos às compensações.

Na Karlsplatz, consegui ver de fora a Staatsoper (belíssima), o castelo de Hofsburg (bônus para a lista), os museus (só por fora) e o Volkstheatre. E se não havia ingressos para a staatsoper, consegui um para um concerto de Mozart e Strauss, com direito a cantores de ópera e um casal de bailarinos. Em cartaz, a Wiener Residenzorchester, no Palais Auesperg.

Foi um espetáculo bem íntimo. O local era luxuoso, mas bem pequeno. O palco suportava os 9 músicos, o tenor e a soprano, além dos bailarinos. Confesso que fiquei desconfiado quando vi o tamanho da sala e a plateia: um bando de turistas como eu - americanos, chineses, japoneses...

Mas o espetáculo foi muito bom. O tamanho do ambiente deu um diferencial ótimo: fez com que nos sentíssemos em um concerto privado para a corte. Nota dez para toda a companhia - tanto em talento, quanto em carisma.

O Schöonbrunn Schloss, mesmo à noite, é uma experiência única. Lugar enorme e muito bonito.

Quanto à apfelstrudel, tortinha de maçã, vale uma conferida.

De resto, é só a formidável familiaridade com que a cidade me recebeu. Como disse, pede um retorno.

Até a próxima!
A volta se aproxima!

Auf Wiedersehen!

Gol de Mehmet!! (Crônicas Tchecas III)


18/10/10

Dobrý den.

A manhã começou de forma bem interessante. Havia um par de pernas a mais na cama de meu amigo turco. Uma encantadora e ainda embriagada tcheca lhe fez companhia durante a noite e agora perambulava pelo quarto em trajes íntimos, procurando pelo resto de suas roupas e distribuindo risadas.

Perguntei a Mehmet qual era o nome dela, mas - que surpresa! - ele não conseguia se lembrar.

Após o susto e um bom café-da-manhã, eu e Laura nos juntamos a um casal de canadenses e partimos para explorar o bairro judeu.

Praga nos recebeu com um lindo e frio sol de domingo. A Ponte Charles estava apinhada de gente, mas, como tudo que tem artigo feminino, ela não perde o charme.

Como sempre, separei-me de Laura para ir ao National Theatre. Era sonho antigo.

Assisti a um balé: a Sylphide, mas o protagonista mesmo era o teatro. Assombroso por fora - majestoso por dentro. Cadeiras escuras, bancadas douradas e muito veludo vermelho. De cair o queixo.

Aliás, Praga é bem musical. Todo dia e em todos os lugares mais belos, anunciavam-se concertos, balés etc. Amantes da música, esta é a sua cidade.

E, segundo Mehmet, é a cidade dos boêmios também.

Indo para Viena!!!

Nashledanou

Caminhada Turística (crônicas Tchecas II)


17/10/10

Praga.

Saímos do albergue às 10:45 da manhä, em um grupo numeroso. O guia nos levava a um ponto de encontro com os seus colegas, onde os grupos seriam divididos por idioma. Eu e Laura ficamos no English Group.

No caminho, aproveitei para conhecer um pouco mais da minha simpática parceira. Olhos de um precioso azul e negros cabelos ondulados, Laura se formou em Comunicação, mas estudou bastante espanhol, tendo até mesmo vivido no país de Cervantes. Depois, voltou para casa e passou a ganhar a vida como garçonete, o que, segundo ela, era dinheiro grande e fácil. Americanos dão gorjetas generosas. Mas, além da vida, ela queria ganhar experiência. Partiu para a Holanda há um mês, pretendendo ficar mais um ano.

A cidade escolhida foi Den Haag, onde trabalha como au pair de dois gêmeos de dois aninhos. Anjinhos sortudos: Laura é gente boa.

E começamos o tour!

Nosso guia chama-se Justin - americano de Boston (go, Celtics!) - rapaz animado e muito extrovertido. Contou uma história comprida sobre como veio parar em Praga. No final, tudo se resumiu assim: arrumou uma mulher tcheca e foi ficando...

E por falar em história, a capital da República Tcheca dispõe de um passado cheio de dominações e lutas. Boêmios, Luxemburgos, nazistas, comunistas... todos tiveram sua ascensão e queda.

Um cidadão ilustre tem uma estátua bem no meio da principal praça da cidade: Jan Huss. Precursor de Lutero, Huss tentou implantar uma reforma na igreja tcheca e foi queimado vivo.

Outros famosos por aqui são os judeus, que têm até um bairro próprio. Distinção? Digamos que antigamente o bairro era cercado por muros e ficava bem abaixo do nível da cidade, causando a ocorrência de várias enchentes.

Justin nos recomendou uma visita ao museu do judaísmo, porém, como era sábado, eu e Laura combinamos para o dia seguinte.

E a nossa caminhada se encerrou no Castelo de Praga, observando de cima esta poderosa cidade e degustando um delicioso e quente café.

Nem a chuvinha gelada quebrou nosso encanto.

À noite, uma vez mais nos despedimos. Laura foi para os bares; eu, para um concerto na Municipal House. A Filarmônica apresentaria Dvorak.

É a idade...

Até a próxima.

O turco, a americana e Praga (crônicas tchecas I)


17/10/10

Praga.

Olá! (Não dá para cumprimentá-los em tcheco - faltam vogais a essa língua)

Visitar Praga sempre foi um sonho de criança, mas devo admitir que a primeira impressão não foi das melhores.

Alguma coisa na atmosfera me oprimia o peito. E chovia.

Troquei meu dinheiro e me perdi no câmbio. Dei 50 euros e recebi mais de 900 CZK. Essa diferença é meio mortífera para quem não entende de números. Um passe global de transporte por 3 dias custa 330 czk; uma coca-cola, 15 czk; um yakisoba de "flango" (God save the chinese people), 79 czk. E por aí vai. Nunca sei se estou pagando caro ou não.

Bom, logo que cheguei ao albergue, a situação deu uma melhorada: parece hotel 5 estrelas. E é muito barato mesmo.

Meu dormitório tem 6 camas e, logo que entrei, dei de cara com um turco boêmio: Mehmet. Boa praça, queria me levar para as noites de Praga. Mas estou velho para fazer companhia a um aspirante a garanhão. Inventei uma desculpa e fui passear pela cidade.

Após uma rápida caminhada, encontrei o grandioso National Theatre - quase um palácio à beira do Vtlava. Na diagonal, o Castelo de Praga se impunha, conquistando a paisagem. Meu coração se rendeu: é uma cidade para se guardar no cofre dos olhos.

Voltei ao albergue e conheci mais uma integrante do apartamento 503: Laura Baptist, uma americana que está trabalhando de au pair na Holanda. Simpática, simples e gente boa. Combinamos de fazer a caminhada turística gratuita no dia seguinte.

Despedimo-nos. Ela queria conhecer a noite de Praga. Eu já tinha visto o suficiente para o dia.

Até a próxima.

Ih! Levaram a Sereia! (crônica dinamarquesa)


15/10/10

Berlin hbf, DE.

Morgen!

Estive em Copenhague na terça-feira. Quatro horas de viagem, paisagem cinematográfica e um bônus: depois de duas horas, o trem parou na fronteira norte da Alemanha e vagarosamente entrou em um ferry-boat gigantesco. Seguimos viagem pelo mar: os passageiros e o trem! Nada absurdo. Aposto que o Japeri também poderia entrar em uma barca e partir para Niterói.

Enfim, cheguei à terra dos Vikings!

Copenhague me recordou uma outra capital européia: Dublin. Ambas são pequenas, charmosas e acolhedoras. Mulher baixinha é uma aventura - sempre nos surpreende.

Bom, Copenhague, toda cortadinha por canais, é tão gente boa que, ao se deixar a Estação Central, dá-se de frente com o Tívoli (quem se lembrar do finado tívoli parque, no RJ, vai denunciar a idade que tem) e com um centro de informações turísticas. Oras, para onde eu iria?

Em um computador, escolhi uma rota de caminhada de duas horas, agarrei um mapa e comecei meu namoro com a cidade.

Parei em uma casa de câmbio e uma simpática senhora nórdica, logo após me assaltar na conversão do euro para a coroa dinamarquesa, animou-se a me dar dicas de turismo. Que posso fazer? Mesmo assaltado, continuo sorrindo.

A bela meliante me indicou o caminho certo para o centro da cidade (eu estava 180° equivocado), indicou os pontos mais famosos e me deu uma notícia de gelar o coração: a estátua da Pequena Sereia está na China. E acrescentou: "não é brincadeira. Ela só volta em novembro!"

Para quem desconhece o fato, Copenhague já foi lar de Hans C. Andersen, criador da famosa história que Walt Disney transpôs para o cinema. O monumento da Pequena Sereia é meio que um símbolo da cidade. E está na China.

Voltará a Pequena Sereia com os olhos puxados? Terá uma entrada USB? Ou haverá uma cópia fiel bem em cima da Grande Muralha?

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Por falar em chineses, mais um agradecimento: os caras também têm restaurantes em Hamburgo e em Copenhague. Dica de viagem do Dudu: com fome, sigam os olhos do oriente.

Continuei minha caminhada de duas horas e me encantei com a cidade nórdica. E devo admitir: povo bonito. Vi uma dinamarquesa de olhos verdes tão claros que chegavam a ser translúcidos.

Terminado o dia, retornei a Hamburgo e me deixei ficar mais um pouco.

Agora, parto para Praga, com a certeza de que tenho um lar nessa "terra de brancos".

Auf Wiedersehen.

Os corvos (crônicas germânicas III)


12/10/10
Hamburg hbf, DE

Morgen!

Amigos, estou indo passar uma tarde em Copenhague. Planejei 4 dias, mas já deu para ver que Hamburg não me deixa partir. Cidade acolhedora!!!

Gosto tanto dela que nem ligo para alguns poréns. Por exemplo, aqui faz frio. Mas é um frio de congelar até encosto! Rezadeiras morreriam de fome no inverno.

E aqui existem corvos.

Imaginem a cena... andei como um desterrado pelas ruas da cidade, em um dia ensolarado. Bem bonito mesmo. Folhas de outono; criancinhas brincando à beira dos canais ou nos parques; adultos fazendo exercícios físicos ou namorando... Então eu parei de repente. Encontrei uma igreja belíssima, consagrada a Santa Gertrude. Estilo bem antigo, torre alta, tijolos avermelhados. Mas ela estava à sombra e, à sombra, faz frio e, no frio, ninguém fica por perto. Só eu a tirar fotos.

Eu e os corvos.

CRÁ CRÁ
O vento balançou algumas folhas.
CRÁ CRÁ

Cenário de filme de terror. Se eu fosse mais medroso, teria ficado paralisado. Mas sou macho: afastei-me a passos firmes! E rápidos.

Fora os corvos e o frio, estou em casa. Recomendo a todos uma visita a esta parte tão brasileira da Alemanha. Conheci um carioca ontem que é puxador da escola de samba Unidos de Hamburgo.

Sim, eles têm samba!

Bom, vou desbravar a Dinamarca!

Auf Wiedersehen!

Maturidade (crônicas germânicas II)


10/10/10
Hamburg Hauptbanhoff, DE.

Morgen!

Hoje é um dia 10. Dez do dez de dois mil e dez!
O sol apareceu bem formoso nesta cidade acolhedora. Continuo na casa dos amigos.
O único ponto a ser corrigido é a falta de comunicação com o Brasil. Como faz falta uma cabine telefônica! Tive que visitar a Reeperbahn, aquela rua da perdição, em busca de um meio econômico de falar com a pátria amada. Ledo engano. Ali só há night clubs e sex shops.

Aproveito a oportunidade para algumas considerações sobre minha pessoa (quando se viaja só, é inevitável pensar um bocado em si mesmo):

Tive medo de pisar em Reeperbahn. Evitei o quanto pude. Não queria confrontar uma parte tão feroz de minha natureza. O vício da carne me consome. E assim tive medo.

Mas a saudade da pátria me empurrou para lá, em busca das tais cabines telefônicas.

Assim que me defrontei com os letreiros em neon, anunciando table dancers e outras coisas, estremeci. Contudo, o amor falou mais alto e segui em frente. Ouso dizer que amadureci um pouco. O que para mim já é muito.

Agradeço o apoio de todos e continuo meu caminho por essas terras de branco (salve, pai Joaquim!). Mas é certo que bate em mim um coração bem brasileiro, que chora pelos pedaços que deixou.

Até a próxima! Estou indo para Lübeck!

Auf Wiedersehen!

Família (crônicas germânicas I)


8/10/10
Hamburg, DE

Morgen!

Voltei à Alemanha. Cheguei a Hamburg!
Consegui reencontrar uma grande amiga, mais irmã que amiga, e resolvi passar uns dias por aqui.

Algumas considerações sobre a primeira viagem de trem.

Agora sou um homem de classe. Primeira classe. Meu passe de trem me dá direito a isso. A diferença, contudo, é basicamente o espaço entre as poltronas e a faixa etária dos passageiros. Eu poderia ser bisneto de alguns.
Sem problemas! Rapidinho assumi meu espaço todo e viajei todo largado, feito um saco de batatas.

Cheguei à minha cidade do coração, encontrei os conhecidos e me tornei amigo de outros. Passamos o primeiro dia falando português e pondo o papo em dia.

Conversei muito com uma baiana que vive aqui há quase tanto tempo quanto eu tenho de vida, mas ainda fala "ô, xente", naquela voz tão musical.

Posso dizer que aprendi um pouco da vida. Quem pensa que é fácil viver na Europa está muito enganado. Só Deus sabe o que essa gente enfrenta.

Mas agora é um novo dia. Passeio pelas ruas bucólicas desta cidade, com o outono me cumprimentando em cada folha amarelada. A brisa geladinha me faz lembrar de onde eu venho e que, por isso, preciso de um casaco.

As férias estão boas...

E o céu, esse divino companheiro, que me dá um azulado "bom dia", é tão bonito quanto aí. Não importa aonde vá, sempre suspiro ao olhar para cima.

Que fazer? Sou fã do artista e da paixão com que esculpiu a sua obra.

Saudades, amigos.

Auf Wiedersehen!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O francês e a belga (crônicas belgas IV)


06/10/10 - Bruxelas, Grand Place

Bonsoir!

Esta crônica é sobre o idioma que mais se fala por aqui: o francês.

O francês não se explica. É preciso apreciar a língua in loco. Para ilustrar, vou descrever um caso.

Saindo de meu albergue, em uma bela manhã de terça-feira, encontro uma discussão de trânsito: o motorista de um renault e um ciclista. O motivo? Não sei, mas era sério.

"Vous a vous, mu mu vous vus, mus mus je je.."

E o outro responde:

"Vous a vous toujours, jeje mimi, vu vu mu mu..."

Os curiosos interromperam seu caminho e observaram a cena com olhos de vidente de tragédia. A coisa ia ficar feia.

Mas eis que uma sirene interrompeu o tumulto. A polícia chegou. Não contente em ligar a sirene, o policial atacou pelo alto-falante:

"Monsieurs, vous vous mimi, jeje vuvu..."

Abandonei o local antes que ouvisse um "dudu".

Pois é. O que salva o belga é que ele fala holandês também. Língua de pronúncia forte. Mas existe um porém nesses idiomas viris.

Entreouvi uma bronca de mãe para filho em algo que lembrava o alemão. Não sei o que o menino fez, mas eu, em seu lugar procuraria uma Igreja ou qualquer solo sagrado. Aquela mãe não era do bem.

Enfim, o francês fica bem para as femmes.

E por falar em fêmea, um adendo.

O troféu "mulher bonita" vai para uma policial belga que encontrei na rua. Só não tirei uma foto, por medo da cadeia.

Farda colada no corpo quase brasileiro, cabelos loiros e duas safiras delicadas que, por algum mistério da natureza, compunham um olhar tão firme, sério.

Confesso. Tenho uma queda por mulheres de uniforme.

Mas não se preocupem. Foi só um beijo que a natureza roubou de meus olhos. Ela se foi, deixando apenas o gosto na vista.

Agora que termino meu jantar à beira da Grand Place (é, depois que a encontrei, virei assíduo frequentador), já sinto a Alemanha crescer em meu espírito.

Au revoir!
A partir de amanhã, é guten morgen!

Nao chore por mim (crônicas belgas III)


06/10/10 - Bruxelas, Parc du Cinquantenaire

Bonjour!

Minha temporada belga está acabando e o frio vem se instalando aqui em Bruxelas.

Acabei de rodar pela cidade em meu ônibus (hop on, hop off) e agora estou descansando à sombra (?) das árvores do Parc du Cinquantenaire.

Amigos, está frio.

O lugar bucólico é bem convidativo para a prática esportiva. Vários grupos já passaram correndo por mim. Uma belga, inclusive, sorriu-me de canto de boca, mas a gazela corria tão rápido que só o Usain Bolt poderia conquistá-la. Não eu, que estou, acima de tudo, aposentado.

E convenhamos: temo que se puser uns shorts de corrida, vou acabar congelando a minha futura paternidade. Melhor ficar sentado e bem agasalhado.

Agora, um pequeno balanço da viagem.

Confesso que esperava mais de Bruxelas. Mas sou carioca. Meus padrões são bem altos. Entretanto, foi um bom começo. Serviu para quebrar o gelo.

E devo desabafar: tirar fotos de mim mesmo é bem difícil! Ainda mais porque faço parte do grupo dos "bonitos de longe". Quando tento tirar fotos minhas, aquelas que todo mundo tira, de braço esticado, nossa! Todas saem como se fossem 3X4: boca torta, caolho, espinha na testa...sem falar na cara de Mr. Bean.

Por isso, é dever de consciência agradecer ao santo que criou o tripé para máquinas fotográficas. Tem sido a minha salvação.

Oh, não! Devo interromper a conversa, pois está chovendo. Se já estou com frio, vou morrer se me molhar.

Ah, antes de ir, observemos a ironia: a Bélgica chora a minha partida.

Toda mulher é mesmo fatal na despedida. Derrete-se toda em lágrimas que te congelam por dentro.

Au revoir.

Minha Terra (crônicas belgas II)


05/10/10 - Bruxelas. Albergue.

Achei a Grand Place! Oui, mes amis! Fica perto do Manneken Pis - aquele bonequinho famoso pela pose inusitada.

Maravilha! Cheia de turistas. Quase me senti em casa de novo. Mas eram, na maioria, japoneses. Enfim...

Aliás, o povo oriental está dominando o mundo. Se aí, no Brasil, proliferam pastelarias, aqui, os chineses estão dominando a gastronomia de forma generalizada. Em vez de pastelarias, restaurantes! Um em cada esquina. E os preços são bem convidativos.

Jantei um "chop suey au boeuf" (que vim a descobrir ser uma porção cavalar broto de feijão com carne e legumes, mais uma tigela de arroz) por 5,50 euros! E pensar que almocei um waffle por 2 euros! Desperdício.

De sobremesa, resolvi provar o tão aclamado chocolate belga. Vi um letreiro bem chamativo: "belgian chocolat". Entrei na loja e dei de cara com uma chinesa no balcão.

Outo ponto positivo: ô, povo poliglota! Eles falam francês, holandês, inglês e, é claro, chinês.
Quem diria que eles seriam os belgas mais acolhedores.

Bem, gracas a eles, nao estou à base de fast-food ou pão. Deus salve a China!
Ou melhor, Buda salve a China...

Au revoir.

What is your name? (crônicas belgas I)


05/10/10 - Bruxelas. Atomium

Amigos, eu me rendo. Reconheço a minha total incapacidade para ler um mapa. Tentei encontrar a Grand Place, mas me perdi. Andei, andei. Achei a Catedral de St Michel. Andei, fui, voltei e nada.

Resolvi apelar para aqueles ônibus de turismo - os de dois andares. "Visit Brussels! Hop on, hop off". Você anda pela cidade, desce nos pontos turísticos e espera um outro ônibus.

Bem, paguei meus dolorosos dezesseis euros pelo dia todo e aqui estou, sob a estrutura metálica do Atomium.

Contudo, o que me levou a escrever foi essa mente que permaneceu no ônibus.

Lá estava eu, sentado no primeiro andar, quando ela chegou toda esvoaçante. Desceu as escadas já tirando os óculos e a echarpe, ainda estremecendo sob o império do frio do segundo andar. Cabelos loiros, olhos azuis, uns trinta e cinco anos de boa aparência. Lançou-me um sorriso daqueles de esquentar o coração e pegou um lugar próximo. O andar estava relativamente vazio: apenas nós dois e uns três japoneses.

Cá em minha solidão, fiquei imaginando de onde seria aquela turista. O "good morning" com que me saudou ainda ecoava em meus ouvidos. E já estava mesmo farto de "bonjour".

Queria tanto lhe entregar um galante e respeitoso "where are you from?", mas a timidez me deixou indeciso.

Então passamos em frente ao Atomium e eu, todo bom moço, chamei-lhe a atenção para as colossais esferas metálicas. Ah, ela sorriu e me deu um presente ainda mais inesquecível: "você é de onde?".

Só mesmo Deus para por uma brasileira tão européia em meu caminho! Era de São Paulo e tinha acabado de chegar de Paris.

Contudo, ela não quis descer no Atomium, então nossa conversa foi interrompida. Mas aquele anjo nem imagina o que um bom português faz com um sujeito isolado na Europa.

Obrigado, minha compatriota. Por um momento, voce esquentou meu coração e me fez estar em casa. E nem ao menos perguntei seu nome...

Agora, preciso ir. Eu e meus amigos japonenses temos um ônibus nos esperando. Afinal, ainda não achei a Grand Place.

Au revoir!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O que ficou?

Voo 4182 (TAP); 03/10/10.

Enfim, partindo. Embarquei em um avião da TAP com destino à cidade do Porto, para fazer uma conexão a Bruxelas.
Estou só. Pelo menos, nesta viagem. Até eu acho que foi uma loucura, mas me pareceu o certo a fazer.
Agora, uma palavra me descreve: ansioso.À minha frente, o vôo, o controle de imigraçãoo e todos os vinte dias na Europa.
Mas vai dar tudo certo.
Parte da ansiedade é pelo que não está indo comigo, pois quem parte sempre deixa alguma coisa. No meu caso, alguns pedaços de coração. Porém eu voltarei para buscá-los.
Só espero que esses vinte dias não os façam diferentes. Que a distância não os lime de um jeito irreversível.
Pois tudo o que eu quero é que eles se encaixem novamente.