sexta-feira, 28 de maio de 2010

Até quando?

Não chove em meu peito. Estou ressecado e quebradiço como um graveto, à espera de um pé que dele se aperceba.
Escrever se tornou um martírio. O tédio me atrofiou a alma: não consegue produzir um suspiro sequer. Faz tempo que só boceja.
A cada ideia abandonada, por conta da inépcia em talhá-la no papel, pergunto-me se não é hora de largar essa utopia. Abandonar o sonho de escrever um livro que me chame de escritor. O ato primário e supremo de romper a casca e findar a própria gestação.
Um livro que narrasse uma epopeia de amor, bravura e lealdade. Que mostrasse ao mundo o caminho da virtude e soprasse ao espírito combalido um instante a mais de esperança.

Quiçá não escrevesse um romance
Mas um poema? O Poema!
Livre em verso e lindo em fundo,
Forjado em amor e magia.

Que encantasse aquela sereia
A cujo canto se rende Netuno,
Entregue à força vil e divina
Que no ser da mulher se oculta.

E inspirasse o tímido rapaz meu verso
A uma rosa e um beijo ofertar
À deusa que lhe fez refém do luar.

Pois em veia de homem corre paixão
À espera de fagulha que lhe dê a poesia
E lhe arda na audácia de amar.

Mas dessas mãos não sai mel que adoce a vida alheia. Estou ao tédio preso como em um conto de fadas, repetido por um velho avô, todas as noites:
“Era uma vez um traste humano que cuspiu nos pés de um deus tirano. E este, vingativo, deu resposta em maldição:
Terás alma de poeta, sedenta de beleza! Mas, em ti, um coxo coração viverá - incapaz de alcançar d’alma a sutileza. E vagarás em noite eterna sobre a Terra, sem lugar: o corpo seco rastejando e o espírito a sonhar!”
E agora eu ouso buscar o Olimpo, sem ter pernas que lhe corram o caminho. Então espero. Aguardo a chuva que me torne fértil e criativo, devastando a secura de talento com que fui malsinado.
Contudo, ela não vem. Então indago: não é hora de aceitar o peso do tempo que se vai, enquanto eu passo?
Mas quem responde?