terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Olhar da Poesia

Hoje encontrei olhos de um verde translúcido. O sol trespassava aquelas contas e devassava profundezas que me convidavam a um mergulho. Olhos de Caribe. Senti a pele arder, temperada pelo sal do mar.

Também me perdi a contemplar olhos de jade bruta, mas que se tornavam esmeraldas quando o rosto se lapidava com um sorriso. Preciosa heresia garimpar aquela riqueza. Cobicei, admirei. Desejei possuir aquelas jóias e com elas ornar minha vida.

Mas vi grandes olhos azuis, banhando uma pele branca, de helênica sedução. Olhos de Egeu. Fui carregado pela maré, perdido com o barco do desejo, encantado pelo mistério do azul profundo daquela jóia. Abandonar-me em tamanha beleza poria em risco a minha própria alma... E o que mais nos convida a um salto que o abismo?

É, todo olhar de mulher guarda um canto de sereia, o brilho da ambição e a luxúria do mistério.

E quanto ao negror de meus olhos, o que guarda? Não posso afirmar.

Mas eu queria mesmo é ter olhos de poesia. Aqueles que devassam a escuridão em torno da luz do espírito.

Ter um ímã de beleza. Enxergar a sutileza das menores coisas. Nenhuma folha caindo é só a queda de um corpo. É o parto de um outono e a saudosa memória daquela primavera.

Ver além. A mais. A fundo.

Dar sentido ao mundo, mesmo que perdendo a lógica na profundeza de um sonho.

Contar a idade em suspiros. Soprar as velas da saudade. Viver cada segundo de amor, à beira da solidão.

Romper a ilusão objetiva e, em espírito, inflado de paixão, roubar as asas dos anjos e me ajoelhar, beijando os pés de Deus.

sábado, 27 de novembro de 2010

Espelho (II)


Amigo,

Devo pedir que me perdoe. Há tempos, caluniei tua imagem e te fiz parecer um demônio. Quis te expulsar da casa em que vivemos e quase te ameacei a vida.
Mas estava errado.

Agora que te vejo à minha frente, não enxergo mais tua monstruosidade. És apenas mais criança - a tua maior virtude.

Em verdade, não somos assim tão diferentes. Ouso dizer que seríamos idênticos, exceto por alguns detalhes...

Tens um sorriso pueril, como o que já tive um dia. Hoje, contudo, carrego o cenho franzido o tempo todo, como se a preocupação do mundo fosse minha.
Em teus olhos, a chama da paixão ainda arde como o sol de janeiro. Tenho apenas o crepitar de uma velha fogueira, já quase apagada.
Teus cabelos despenteados e o ar esbaforido sugerem aventuras e uma vida em movimento. Estou sempre sentado no banco da praça.

Eu te invejo, meu velho. Pelo teu sabor de vida - esse tempero de paixão. Tu respondes aos impulsos do teu peito. Teu mundo não tem leis descobertas. É só o constante mistério da abstenção do amanhã. O universo em ti é só presente.

Sim, eu te invejo. A minha razão, cheia de cálculos mortos, é uma rédea à tua força, a essa maré sempre cheia. Com isso, eu te entristeço, bem o sei. Mas também fico triste, por minha vez. Aliás, é nossa única hora de comunhão, pois, na tua alegria, estou geralmente em culpa.

É, amigo, tua lágrima desce pelos meus olhos. E sei que estás esperando a alegria entrar pela porta a qualquer hora e até nisso és mais feliz: tens esperança. A mim, restam os cálculos das perdas e dos ganhos não vindos.

Choremos juntos. Não mais te quero longe. Tuas lembranças me mantêm vivo.

Mas o que é isso? Sorris?
Ah, como te invejo...

Desista, contudo. Ela não vem. A poesia se foi. Está na terra dos versos de solidão - os que se lêem no vazio semblante do poeta cabisbaixo.

Entretanto, por consideração a ti, deixarei a porta aberta.
Só não olhes muito - a tua dor vive em mim.
E eu? Eu tenho amanhã, não te esqueças.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sorrir

Estou farto de tristeza!
Façamos uma promessa: vamos sorrir!

Talvez por termos amigos por perto. Amigos mesmo!
Daqueles com quem travamos horas de diálogo sobre a importância de não se fazer nada. Com quem discutimos o ócio do dia e o cansaço que o tédio nos dá. Companheiros que não nos deixam passar a hora sem uma piada - mesmo que sobre nós mesmos, nossas vergonhas e catástrofes pessoais. Oras! É bom sorrir de nossas desgraças! É subversivo. É um riso de rebeldia, rebelião. Tem cheiro de sangue, mas sabor de vitória!

Também podemos ter nos deparado com um céu belíssimo. Daqueles bem claros, em que até aparecem nuvens, mas apenas por capricho do Artista. E sob esse belo firmamento, aspiramos a longos haustos o ar da manhã - poluído, sim, mas refrescante! Que honra é ser saudado pela natureza! Que boas-vindas do dia que começa!

Ou quem sabe acabamos de encontrar o rosto inocente de uma criança feliz? Dessas que só têm bochechas e dobrinhas. Pesadas como ursinhos de chumbo, mas tão fofinhas que não nos descem do colo. Quão adorável é o rosto de um pequeno, que, mesmo sem um dente sequer, consegue sorrir a um adulto enfermo de alma! Sorri e lhe ensina a sorrir. É contagioso. É divino.

Seja qual for a razão, vamos sorrir agora. Agora, depois, adiante.
Por um cão vadio e amigo.
Por um pedaço de chocolate - hum.. Lascivo!
Pelo Real recebido - bem-vindo! (E volte sempre!)
Pelo beijo bem dado - só isso? (Vem cá! Quero mais!)

Sorrir, ainda que sem graça ter ouvido, apenas pelo ato de entregar alegria, é solidário. Mais que isso: é humano!

Porque, mesmo com toda a nossa dor fiel, tudo não passa de uma farsa bem montada. É só olhar o horizonte ou o céu estrelado, que dá para perceber que construímos um pequeno cenário dentro do verdadeiro palco. E toda lágrima, todo desespero, cada vergar de joelhos - tudo(!) não passa de uma cena. Bem ensaiada, mas UMA cena. O espetáculo, afinal, é sobre amor e comédia.

Beijos e sorrisos...

Essa é a poesia da vida.

É tudo que fica.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

P.S.:


Rio de Janeiro, 27/10/10.

Olá!

A viagem terminou. Foram vinte dias intensos e, às vezes, antagônicos. Cheguei a pensar em um retorno antecipado. Depois, já queria planejar as próximas férias.

O certo é que a Europa, com todas as suas cores, merece uma visita durante a primavera. Se o amarelo-avermelhado já fez do outono uma obra-prima, a estação das flores é uma grande promessa.

Contudo, antes de assumir de vez o fim das férias, gostaria de resgatar algumas curiosidades.

- Após a primeira noite em Bruxelas, acordei com uma ferida no lábio inferior. Corri para a farmácia mais próxima. O homem de trás do balcão observou-me com a testa franzida e, usando um inglês afrancesado, perguntou-me o que era aquilo.
Devo dizer que a ferida não é nenhuma novidade. Já nos encontramos antes e, segundo minhas observações, ela precisa de duas condições para eclodir: a primeira é que eu esteja em um lugar frio; a segunda, que eu viaje sozinho.

Portanto, quando o farmacêutico me lançou aquela pergunta, nem hesitei: “É praga de mulher. Viajei sozinho”.

Para minha surpresa, o homem sorriu e me ofereceu uma caixinha amarela, contendo um remédio desconhecido. Levou-me seis euros e me recomendou usar o composto de 3 a 4 vezes ao dia. Por fim, avisou: “Comporte-se”.

A maldição resistiu bravamente até a chegada a Praga (!). Mas é claro que me comportei o tempo todo. Se a mandinga preventiva já foi tão resistente, a repressiva poderia ser fatal.

- Em Hamburgo, após falhar na busca por uma cabine telefônica, encontrei um pub muito simpático, incrustado na Reeperbahn. Era um bar dedicado ao rock n’ roll.
No palco, uma banda cover do AC/DC lançava gritos pelo ar. Muito bom!

A clientela era bem eclética: alguns das antigas e outros iniciantes. Mas quase todos em harmonia. Jovens e “coroas” tatuados derramavam jarras de cerveja, ao som de Highway to Hell.

Preso à veracidade que deve imperar neste relatório, assumo ter sido assediado por uma animada freqüentadora. Mas calculei que tivesse a idade da minha mãe.

Enfim, o bar era muito animado e seguro. Uma bartender de 1,80m, cheia de tatuagens, empurrou um chato para fora. Mãos no colarinho dele e olhos predadores – moça feroz! O bêbado não teve chance.

O único porém do lugar é que o cigarro estava em toda parte. Quando não pude mais respirar, tive que ir embora prematuramente.

- Copenhague é muito interessante mesmo. Ao fim do expediente, homens e mulheres de negócios vão para casa em cima de suas bicicletas. Ternos, saltos altos, maletas... e as bikes! Radical. E com direito a hora do rush.

- Praga é uma cidade cinematográfica. Tom Cruise lá estava em sua Missão Impossível 4. Passei em frente ao local em que Vin Diesel e Asia Argento enfrentaram um sniper, em Triplo X (foi na Municipal House). E ainda descobri que outros filmes, cujo roteiro nem fala de Praga, também foram rodados lá. Como exemplos: Passaporte para a confusão (Eurotrip), que foi todo realizado na cidade, e Identidade Bourne (em um parque na suposta Zurique, logo após fugir de um guarda, Matt Damon corre pelos arredores do Rudolfinum).

Ah! Um canadense que eu conheci era jogador de futebol profissional. Quando atuava nos EUA, teve a chance de jogar contra o Romário. Como prova de que realmente conhece o baixinho, o amigo relatou: “Ele ficou parado por 89 minutos. De repente, fez um gol”. Alguém duvida?

- Em Viena, encontrei uma adolescente notável. Bonita e bem alegre, conquistou-me por um pequeno detalhe: usava um gorro que tinha a forma da cabeça de um husky siberiano. Lembrou-me Luna Lovegood e o leão da Grifinória. Nota dez!

Bem, é isso, companheiros. Há muito mais o que dizer, mas vocês terão que explorar a minha memória pessoalmente.

Para encerrar, digo de coração: o melhor de viajar é a volta para casa.

Obrigado, pátria amada, por me receber novamente em seus braços.

Até logo!

P.P.S.: Que soem as gaitas de fole! Um bravo guerreiro tombou!
Ferido em combate, ficou ao meu lado até o fim. Contudo, perder uma perna é mortal para qualquer tripé. Mexe com sua essência.
Adeus, meu amigo! Tivemos bons momentos juntos. Descanse em paz.

Museu do Judaísmo

Praga, 18/10/10

Visitamos o museu do judaísmo e tive que deixar a ocasião registrada de forma particular. É um museu simples. Não possui muitos objetos preciosos, caracterizando-se basicamente por ter nomes nas paredes. Nomes e datas.

Vejamos o caso de Adolf Blum (12.III.1905 / 15.XII.1943). Quem foi esse homem? Quem foram seus pais, seus filhos? O nome dele está no meio de milhares de outros, seguidos de datas extraídas de um período macabro da nossa história.

É um museu do holocausto.

A segunda parte da mostra é repleta de pinturas e desenhos infantis. Em uma vila tcheca, mais conhecida como Terezín Ghetto, funcionava um campo de transição para um lugar que dispensa apresentações: Auschwitz. E em Terezín, havia uma ala infantil, como em muitos outros campos de concentração espalhados pela Europa nazista.

O que torna o Ghetto interessante é que os nazistas o utilizavam como propaganda. Filmavam as crianças estudando e se divertindo, a fim de mostrar para o mundo que eles cuidavam bem dos judeus. A realidade era bem diferente.

A austríaca Friedl Dicker Brandeisová (30.VII.1898, Viena – 1944, Auschwitz), preocupada com a situação das crianças, resolveu iniciar um trabalho de catarse por meio de pinturas e desenhos. Fazia milagres para conseguir papel, lápis, carvão – tudo que fosse útil em artes plásticas – e distribuiu para os meninos. A orientação era deixar sair o que lhes viesse à mente.

Em tempos claustrofóbicos, aterrorizantes, a maioria dos desenhos mostrava cenas de alegria, brincadeiras, o dia-a-dia nos dormitórios, janelas abertas, trens partindo... A felicidade e a esperança resistiam ao terror, abrigadas nos corações mais jovens.

Mas veio a proximidade da paz. E a noite é mais escura logo antes do sol nascer. Com a derrota à vista, os homens da suástica iniciaram sua queima de arquivos.
Inspirada por algum anjo, a austríaca reuniu todos os desenhos que encontrou – cerca de quatro mil, guardou-os em malas e os enterrou em Terezín. Logo depois, ela mesma foi para Auschwitz.

As pinturas de esperança, guardadas pela coragem dessa mulher, foram o único registro da existência de milhares daquelas crianças, cuja estrondosa maioria também partiu para o campo da morte. Menos de uma centena escapou.

Milena Deimlová (09.XII.1932 – 26.XI.1942 – 23.X.1944) fez um desenho sobre o dormitório feminino. Contudo, o que mais me chamou a atenção foram as datas: nasceu em 32, foi para Terezín em 42 e foi executada em 23 de outubro de 1944, quase completando doze anos.

Em 23 de outubro de 2010, estarei voando para o meu Rio de Janeiro e Milena, há 66 anos, encontrava o suspiro final.

Milena e Adolf,

Não há palavras que diminuam a monstruosidade que fizemos. Todos nós.

O nazismo foi só a máscara do demônio que vive no peito dos homens. Ele se alimenta do ódio, da intolerância, mas sobrevive graças à covardia e à omissão.

Deixamos vocês morrerem nas mãos dos nossos monstros.


Ao meu lado, uma canadense estava arrasada: “Pensar que isso ocorreu chega a me enlouquecer”.

O que ela parece não saber é que isso ainda ocorre todo dia.

A suástica de hoje é a fome. A farda negra é envergada pela miséria, pelas epidemias, pelas guerras civis e suas limpezas étnicas.

Adolf e Milena continuam sendo executados nos campos de concentração da África, da América Central, do Brasil. Crianças ainda trabalham como escravas e, não raro, no submundo da depravação. Pais vêem seus filhos definharem ou serem brutalmente assassinados. Esposas e mães são violentadas. Muitas vidas são perdidas.

E isso ocorre hoje! Agora!

Chega a enlouquecer a mente presa nas tenazes da cegueira, da omissão. Mas o Führer continua na Terra, onde sempre esteve, à sombra de nossos olhos fechados.

Milena, Adolf, somalis, etíopes, congoleses, haitianos.

O sangue deles é derramado pela injustiça que governa os homens. Dormimos vidas inteiras, ocupados com carros, casas, moda, enquanto o terror ainda rasteja pela Terra.

Que cada um faça o que e como puder. Nossos olhos não estão mais fechados, mas nossas mãos precisam se mexer.

Pois até quando deixaremos a esperança morrer nos corações infantis? No pranto de pais e mães?

Até quando crianças vão sonhar com brincadeiras, enquanto vivem tormentos infernais?

Cuidemos dos nossos filhos, da nossa família. Aqui e ao redor do globo. Não há nada mais digno e urgente a fazer.

Cuidemos dos nossos.

Enquanto a omissão lançar um véu sobre nós, a insanidade reinará sobre a Terra.

Milena foi executada. Adolf também.

Milena e Adolf.

Que esses nomes sejam mantras de força em nosso espírito. Um hino contra o mal da humanidade. Já é hora de cessar tanta loucura, ou vidas continuarão caindo aos nossos pés.

Deus nos ajude! Mantenha nossos olhos bem abertos, para que o sangue não manche nossas pálpebras. E nossas almas.

A toda vítima da indecência, da selvageria e da crueldade: perdão! Eu permiti a sua dor. E ainda permito.

Mas finjo que não vejo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Viena


19/10/10

Hamburg, DE.

Morgen!

De volta à Alemanha. Mais uma vez, Hamburgo me recebe de braços abertos. Contudo, ouso dizer que Viena me cativou platonicamente. Cidade com gosto de retorno.

Passei uma tarde por lá e fiquei boquiaberto com os grandiosos monumentos e construções. Se em Praga prevalece a atmosfera romântica e antiga, em Viena você tem um ar de império.

O povo nas ruas parece bem simpático. Os atendentes de guichês também (coisa rara no mundo todo). Sempre que precisei de informações, fui mais que bem servido.

Bom, cheguei por volta das 13 horas e parti logo para as providências básicas: mapa e bilhete de metrô. Depois, rumo à batalha.

No meu bolso, indicações de pontos interessantes para serem conhecidos:
Donauturm (torre de TV); Prater (parque); Schönbrunn Schloss (um palácio); Karlsplatz; e provar um apfelstrudel e um wiener schinitzel.

Adicionei à lista a staatsoper e a stephansplatz (onde existe uma belíssima catedral).

Tentei cumprir os itens na íntegra, mas confesso minha derrota. Era uma tarde de outono em Viena: 9 graus e o dia escureceu rapidamente. Cortei a torre e o parque. Também não encontrei o wiener schnitzel e não havia ingressos para a staatsoper. Mas vamos às compensações.

Na Karlsplatz, consegui ver de fora a Staatsoper (belíssima), o castelo de Hofsburg (bônus para a lista), os museus (só por fora) e o Volkstheatre. E se não havia ingressos para a staatsoper, consegui um para um concerto de Mozart e Strauss, com direito a cantores de ópera e um casal de bailarinos. Em cartaz, a Wiener Residenzorchester, no Palais Auesperg.

Foi um espetáculo bem íntimo. O local era luxuoso, mas bem pequeno. O palco suportava os 9 músicos, o tenor e a soprano, além dos bailarinos. Confesso que fiquei desconfiado quando vi o tamanho da sala e a plateia: um bando de turistas como eu - americanos, chineses, japoneses...

Mas o espetáculo foi muito bom. O tamanho do ambiente deu um diferencial ótimo: fez com que nos sentíssemos em um concerto privado para a corte. Nota dez para toda a companhia - tanto em talento, quanto em carisma.

O Schöonbrunn Schloss, mesmo à noite, é uma experiência única. Lugar enorme e muito bonito.

Quanto à apfelstrudel, tortinha de maçã, vale uma conferida.

De resto, é só a formidável familiaridade com que a cidade me recebeu. Como disse, pede um retorno.

Até a próxima!
A volta se aproxima!

Auf Wiedersehen!

Gol de Mehmet!! (Crônicas Tchecas III)


18/10/10

Dobrý den.

A manhã começou de forma bem interessante. Havia um par de pernas a mais na cama de meu amigo turco. Uma encantadora e ainda embriagada tcheca lhe fez companhia durante a noite e agora perambulava pelo quarto em trajes íntimos, procurando pelo resto de suas roupas e distribuindo risadas.

Perguntei a Mehmet qual era o nome dela, mas - que surpresa! - ele não conseguia se lembrar.

Após o susto e um bom café-da-manhã, eu e Laura nos juntamos a um casal de canadenses e partimos para explorar o bairro judeu.

Praga nos recebeu com um lindo e frio sol de domingo. A Ponte Charles estava apinhada de gente, mas, como tudo que tem artigo feminino, ela não perde o charme.

Como sempre, separei-me de Laura para ir ao National Theatre. Era sonho antigo.

Assisti a um balé: a Sylphide, mas o protagonista mesmo era o teatro. Assombroso por fora - majestoso por dentro. Cadeiras escuras, bancadas douradas e muito veludo vermelho. De cair o queixo.

Aliás, Praga é bem musical. Todo dia e em todos os lugares mais belos, anunciavam-se concertos, balés etc. Amantes da música, esta é a sua cidade.

E, segundo Mehmet, é a cidade dos boêmios também.

Indo para Viena!!!

Nashledanou

Caminhada Turística (crônicas Tchecas II)


17/10/10

Praga.

Saímos do albergue às 10:45 da manhä, em um grupo numeroso. O guia nos levava a um ponto de encontro com os seus colegas, onde os grupos seriam divididos por idioma. Eu e Laura ficamos no English Group.

No caminho, aproveitei para conhecer um pouco mais da minha simpática parceira. Olhos de um precioso azul e negros cabelos ondulados, Laura se formou em Comunicação, mas estudou bastante espanhol, tendo até mesmo vivido no país de Cervantes. Depois, voltou para casa e passou a ganhar a vida como garçonete, o que, segundo ela, era dinheiro grande e fácil. Americanos dão gorjetas generosas. Mas, além da vida, ela queria ganhar experiência. Partiu para a Holanda há um mês, pretendendo ficar mais um ano.

A cidade escolhida foi Den Haag, onde trabalha como au pair de dois gêmeos de dois aninhos. Anjinhos sortudos: Laura é gente boa.

E começamos o tour!

Nosso guia chama-se Justin - americano de Boston (go, Celtics!) - rapaz animado e muito extrovertido. Contou uma história comprida sobre como veio parar em Praga. No final, tudo se resumiu assim: arrumou uma mulher tcheca e foi ficando...

E por falar em história, a capital da República Tcheca dispõe de um passado cheio de dominações e lutas. Boêmios, Luxemburgos, nazistas, comunistas... todos tiveram sua ascensão e queda.

Um cidadão ilustre tem uma estátua bem no meio da principal praça da cidade: Jan Huss. Precursor de Lutero, Huss tentou implantar uma reforma na igreja tcheca e foi queimado vivo.

Outros famosos por aqui são os judeus, que têm até um bairro próprio. Distinção? Digamos que antigamente o bairro era cercado por muros e ficava bem abaixo do nível da cidade, causando a ocorrência de várias enchentes.

Justin nos recomendou uma visita ao museu do judaísmo, porém, como era sábado, eu e Laura combinamos para o dia seguinte.

E a nossa caminhada se encerrou no Castelo de Praga, observando de cima esta poderosa cidade e degustando um delicioso e quente café.

Nem a chuvinha gelada quebrou nosso encanto.

À noite, uma vez mais nos despedimos. Laura foi para os bares; eu, para um concerto na Municipal House. A Filarmônica apresentaria Dvorak.

É a idade...

Até a próxima.

O turco, a americana e Praga (crônicas tchecas I)


17/10/10

Praga.

Olá! (Não dá para cumprimentá-los em tcheco - faltam vogais a essa língua)

Visitar Praga sempre foi um sonho de criança, mas devo admitir que a primeira impressão não foi das melhores.

Alguma coisa na atmosfera me oprimia o peito. E chovia.

Troquei meu dinheiro e me perdi no câmbio. Dei 50 euros e recebi mais de 900 CZK. Essa diferença é meio mortífera para quem não entende de números. Um passe global de transporte por 3 dias custa 330 czk; uma coca-cola, 15 czk; um yakisoba de "flango" (God save the chinese people), 79 czk. E por aí vai. Nunca sei se estou pagando caro ou não.

Bom, logo que cheguei ao albergue, a situação deu uma melhorada: parece hotel 5 estrelas. E é muito barato mesmo.

Meu dormitório tem 6 camas e, logo que entrei, dei de cara com um turco boêmio: Mehmet. Boa praça, queria me levar para as noites de Praga. Mas estou velho para fazer companhia a um aspirante a garanhão. Inventei uma desculpa e fui passear pela cidade.

Após uma rápida caminhada, encontrei o grandioso National Theatre - quase um palácio à beira do Vtlava. Na diagonal, o Castelo de Praga se impunha, conquistando a paisagem. Meu coração se rendeu: é uma cidade para se guardar no cofre dos olhos.

Voltei ao albergue e conheci mais uma integrante do apartamento 503: Laura Baptist, uma americana que está trabalhando de au pair na Holanda. Simpática, simples e gente boa. Combinamos de fazer a caminhada turística gratuita no dia seguinte.

Despedimo-nos. Ela queria conhecer a noite de Praga. Eu já tinha visto o suficiente para o dia.

Até a próxima.

Ih! Levaram a Sereia! (crônica dinamarquesa)


15/10/10

Berlin hbf, DE.

Morgen!

Estive em Copenhague na terça-feira. Quatro horas de viagem, paisagem cinematográfica e um bônus: depois de duas horas, o trem parou na fronteira norte da Alemanha e vagarosamente entrou em um ferry-boat gigantesco. Seguimos viagem pelo mar: os passageiros e o trem! Nada absurdo. Aposto que o Japeri também poderia entrar em uma barca e partir para Niterói.

Enfim, cheguei à terra dos Vikings!

Copenhague me recordou uma outra capital européia: Dublin. Ambas são pequenas, charmosas e acolhedoras. Mulher baixinha é uma aventura - sempre nos surpreende.

Bom, Copenhague, toda cortadinha por canais, é tão gente boa que, ao se deixar a Estação Central, dá-se de frente com o Tívoli (quem se lembrar do finado tívoli parque, no RJ, vai denunciar a idade que tem) e com um centro de informações turísticas. Oras, para onde eu iria?

Em um computador, escolhi uma rota de caminhada de duas horas, agarrei um mapa e comecei meu namoro com a cidade.

Parei em uma casa de câmbio e uma simpática senhora nórdica, logo após me assaltar na conversão do euro para a coroa dinamarquesa, animou-se a me dar dicas de turismo. Que posso fazer? Mesmo assaltado, continuo sorrindo.

A bela meliante me indicou o caminho certo para o centro da cidade (eu estava 180° equivocado), indicou os pontos mais famosos e me deu uma notícia de gelar o coração: a estátua da Pequena Sereia está na China. E acrescentou: "não é brincadeira. Ela só volta em novembro!"

Para quem desconhece o fato, Copenhague já foi lar de Hans C. Andersen, criador da famosa história que Walt Disney transpôs para o cinema. O monumento da Pequena Sereia é meio que um símbolo da cidade. E está na China.

Voltará a Pequena Sereia com os olhos puxados? Terá uma entrada USB? Ou haverá uma cópia fiel bem em cima da Grande Muralha?

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Por falar em chineses, mais um agradecimento: os caras também têm restaurantes em Hamburgo e em Copenhague. Dica de viagem do Dudu: com fome, sigam os olhos do oriente.

Continuei minha caminhada de duas horas e me encantei com a cidade nórdica. E devo admitir: povo bonito. Vi uma dinamarquesa de olhos verdes tão claros que chegavam a ser translúcidos.

Terminado o dia, retornei a Hamburgo e me deixei ficar mais um pouco.

Agora, parto para Praga, com a certeza de que tenho um lar nessa "terra de brancos".

Auf Wiedersehen.

Os corvos (crônicas germânicas III)


12/10/10
Hamburg hbf, DE

Morgen!

Amigos, estou indo passar uma tarde em Copenhague. Planejei 4 dias, mas já deu para ver que Hamburg não me deixa partir. Cidade acolhedora!!!

Gosto tanto dela que nem ligo para alguns poréns. Por exemplo, aqui faz frio. Mas é um frio de congelar até encosto! Rezadeiras morreriam de fome no inverno.

E aqui existem corvos.

Imaginem a cena... andei como um desterrado pelas ruas da cidade, em um dia ensolarado. Bem bonito mesmo. Folhas de outono; criancinhas brincando à beira dos canais ou nos parques; adultos fazendo exercícios físicos ou namorando... Então eu parei de repente. Encontrei uma igreja belíssima, consagrada a Santa Gertrude. Estilo bem antigo, torre alta, tijolos avermelhados. Mas ela estava à sombra e, à sombra, faz frio e, no frio, ninguém fica por perto. Só eu a tirar fotos.

Eu e os corvos.

CRÁ CRÁ
O vento balançou algumas folhas.
CRÁ CRÁ

Cenário de filme de terror. Se eu fosse mais medroso, teria ficado paralisado. Mas sou macho: afastei-me a passos firmes! E rápidos.

Fora os corvos e o frio, estou em casa. Recomendo a todos uma visita a esta parte tão brasileira da Alemanha. Conheci um carioca ontem que é puxador da escola de samba Unidos de Hamburgo.

Sim, eles têm samba!

Bom, vou desbravar a Dinamarca!

Auf Wiedersehen!

Maturidade (crônicas germânicas II)


10/10/10
Hamburg Hauptbanhoff, DE.

Morgen!

Hoje é um dia 10. Dez do dez de dois mil e dez!
O sol apareceu bem formoso nesta cidade acolhedora. Continuo na casa dos amigos.
O único ponto a ser corrigido é a falta de comunicação com o Brasil. Como faz falta uma cabine telefônica! Tive que visitar a Reeperbahn, aquela rua da perdição, em busca de um meio econômico de falar com a pátria amada. Ledo engano. Ali só há night clubs e sex shops.

Aproveito a oportunidade para algumas considerações sobre minha pessoa (quando se viaja só, é inevitável pensar um bocado em si mesmo):

Tive medo de pisar em Reeperbahn. Evitei o quanto pude. Não queria confrontar uma parte tão feroz de minha natureza. O vício da carne me consome. E assim tive medo.

Mas a saudade da pátria me empurrou para lá, em busca das tais cabines telefônicas.

Assim que me defrontei com os letreiros em neon, anunciando table dancers e outras coisas, estremeci. Contudo, o amor falou mais alto e segui em frente. Ouso dizer que amadureci um pouco. O que para mim já é muito.

Agradeço o apoio de todos e continuo meu caminho por essas terras de branco (salve, pai Joaquim!). Mas é certo que bate em mim um coração bem brasileiro, que chora pelos pedaços que deixou.

Até a próxima! Estou indo para Lübeck!

Auf Wiedersehen!

Família (crônicas germânicas I)


8/10/10
Hamburg, DE

Morgen!

Voltei à Alemanha. Cheguei a Hamburg!
Consegui reencontrar uma grande amiga, mais irmã que amiga, e resolvi passar uns dias por aqui.

Algumas considerações sobre a primeira viagem de trem.

Agora sou um homem de classe. Primeira classe. Meu passe de trem me dá direito a isso. A diferença, contudo, é basicamente o espaço entre as poltronas e a faixa etária dos passageiros. Eu poderia ser bisneto de alguns.
Sem problemas! Rapidinho assumi meu espaço todo e viajei todo largado, feito um saco de batatas.

Cheguei à minha cidade do coração, encontrei os conhecidos e me tornei amigo de outros. Passamos o primeiro dia falando português e pondo o papo em dia.

Conversei muito com uma baiana que vive aqui há quase tanto tempo quanto eu tenho de vida, mas ainda fala "ô, xente", naquela voz tão musical.

Posso dizer que aprendi um pouco da vida. Quem pensa que é fácil viver na Europa está muito enganado. Só Deus sabe o que essa gente enfrenta.

Mas agora é um novo dia. Passeio pelas ruas bucólicas desta cidade, com o outono me cumprimentando em cada folha amarelada. A brisa geladinha me faz lembrar de onde eu venho e que, por isso, preciso de um casaco.

As férias estão boas...

E o céu, esse divino companheiro, que me dá um azulado "bom dia", é tão bonito quanto aí. Não importa aonde vá, sempre suspiro ao olhar para cima.

Que fazer? Sou fã do artista e da paixão com que esculpiu a sua obra.

Saudades, amigos.

Auf Wiedersehen!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O francês e a belga (crônicas belgas IV)


06/10/10 - Bruxelas, Grand Place

Bonsoir!

Esta crônica é sobre o idioma que mais se fala por aqui: o francês.

O francês não se explica. É preciso apreciar a língua in loco. Para ilustrar, vou descrever um caso.

Saindo de meu albergue, em uma bela manhã de terça-feira, encontro uma discussão de trânsito: o motorista de um renault e um ciclista. O motivo? Não sei, mas era sério.

"Vous a vous, mu mu vous vus, mus mus je je.."

E o outro responde:

"Vous a vous toujours, jeje mimi, vu vu mu mu..."

Os curiosos interromperam seu caminho e observaram a cena com olhos de vidente de tragédia. A coisa ia ficar feia.

Mas eis que uma sirene interrompeu o tumulto. A polícia chegou. Não contente em ligar a sirene, o policial atacou pelo alto-falante:

"Monsieurs, vous vous mimi, jeje vuvu..."

Abandonei o local antes que ouvisse um "dudu".

Pois é. O que salva o belga é que ele fala holandês também. Língua de pronúncia forte. Mas existe um porém nesses idiomas viris.

Entreouvi uma bronca de mãe para filho em algo que lembrava o alemão. Não sei o que o menino fez, mas eu, em seu lugar procuraria uma Igreja ou qualquer solo sagrado. Aquela mãe não era do bem.

Enfim, o francês fica bem para as femmes.

E por falar em fêmea, um adendo.

O troféu "mulher bonita" vai para uma policial belga que encontrei na rua. Só não tirei uma foto, por medo da cadeia.

Farda colada no corpo quase brasileiro, cabelos loiros e duas safiras delicadas que, por algum mistério da natureza, compunham um olhar tão firme, sério.

Confesso. Tenho uma queda por mulheres de uniforme.

Mas não se preocupem. Foi só um beijo que a natureza roubou de meus olhos. Ela se foi, deixando apenas o gosto na vista.

Agora que termino meu jantar à beira da Grand Place (é, depois que a encontrei, virei assíduo frequentador), já sinto a Alemanha crescer em meu espírito.

Au revoir!
A partir de amanhã, é guten morgen!

Nao chore por mim (crônicas belgas III)


06/10/10 - Bruxelas, Parc du Cinquantenaire

Bonjour!

Minha temporada belga está acabando e o frio vem se instalando aqui em Bruxelas.

Acabei de rodar pela cidade em meu ônibus (hop on, hop off) e agora estou descansando à sombra (?) das árvores do Parc du Cinquantenaire.

Amigos, está frio.

O lugar bucólico é bem convidativo para a prática esportiva. Vários grupos já passaram correndo por mim. Uma belga, inclusive, sorriu-me de canto de boca, mas a gazela corria tão rápido que só o Usain Bolt poderia conquistá-la. Não eu, que estou, acima de tudo, aposentado.

E convenhamos: temo que se puser uns shorts de corrida, vou acabar congelando a minha futura paternidade. Melhor ficar sentado e bem agasalhado.

Agora, um pequeno balanço da viagem.

Confesso que esperava mais de Bruxelas. Mas sou carioca. Meus padrões são bem altos. Entretanto, foi um bom começo. Serviu para quebrar o gelo.

E devo desabafar: tirar fotos de mim mesmo é bem difícil! Ainda mais porque faço parte do grupo dos "bonitos de longe". Quando tento tirar fotos minhas, aquelas que todo mundo tira, de braço esticado, nossa! Todas saem como se fossem 3X4: boca torta, caolho, espinha na testa...sem falar na cara de Mr. Bean.

Por isso, é dever de consciência agradecer ao santo que criou o tripé para máquinas fotográficas. Tem sido a minha salvação.

Oh, não! Devo interromper a conversa, pois está chovendo. Se já estou com frio, vou morrer se me molhar.

Ah, antes de ir, observemos a ironia: a Bélgica chora a minha partida.

Toda mulher é mesmo fatal na despedida. Derrete-se toda em lágrimas que te congelam por dentro.

Au revoir.

Minha Terra (crônicas belgas II)


05/10/10 - Bruxelas. Albergue.

Achei a Grand Place! Oui, mes amis! Fica perto do Manneken Pis - aquele bonequinho famoso pela pose inusitada.

Maravilha! Cheia de turistas. Quase me senti em casa de novo. Mas eram, na maioria, japoneses. Enfim...

Aliás, o povo oriental está dominando o mundo. Se aí, no Brasil, proliferam pastelarias, aqui, os chineses estão dominando a gastronomia de forma generalizada. Em vez de pastelarias, restaurantes! Um em cada esquina. E os preços são bem convidativos.

Jantei um "chop suey au boeuf" (que vim a descobrir ser uma porção cavalar broto de feijão com carne e legumes, mais uma tigela de arroz) por 5,50 euros! E pensar que almocei um waffle por 2 euros! Desperdício.

De sobremesa, resolvi provar o tão aclamado chocolate belga. Vi um letreiro bem chamativo: "belgian chocolat". Entrei na loja e dei de cara com uma chinesa no balcão.

Outo ponto positivo: ô, povo poliglota! Eles falam francês, holandês, inglês e, é claro, chinês.
Quem diria que eles seriam os belgas mais acolhedores.

Bem, gracas a eles, nao estou à base de fast-food ou pão. Deus salve a China!
Ou melhor, Buda salve a China...

Au revoir.

What is your name? (crônicas belgas I)


05/10/10 - Bruxelas. Atomium

Amigos, eu me rendo. Reconheço a minha total incapacidade para ler um mapa. Tentei encontrar a Grand Place, mas me perdi. Andei, andei. Achei a Catedral de St Michel. Andei, fui, voltei e nada.

Resolvi apelar para aqueles ônibus de turismo - os de dois andares. "Visit Brussels! Hop on, hop off". Você anda pela cidade, desce nos pontos turísticos e espera um outro ônibus.

Bem, paguei meus dolorosos dezesseis euros pelo dia todo e aqui estou, sob a estrutura metálica do Atomium.

Contudo, o que me levou a escrever foi essa mente que permaneceu no ônibus.

Lá estava eu, sentado no primeiro andar, quando ela chegou toda esvoaçante. Desceu as escadas já tirando os óculos e a echarpe, ainda estremecendo sob o império do frio do segundo andar. Cabelos loiros, olhos azuis, uns trinta e cinco anos de boa aparência. Lançou-me um sorriso daqueles de esquentar o coração e pegou um lugar próximo. O andar estava relativamente vazio: apenas nós dois e uns três japoneses.

Cá em minha solidão, fiquei imaginando de onde seria aquela turista. O "good morning" com que me saudou ainda ecoava em meus ouvidos. E já estava mesmo farto de "bonjour".

Queria tanto lhe entregar um galante e respeitoso "where are you from?", mas a timidez me deixou indeciso.

Então passamos em frente ao Atomium e eu, todo bom moço, chamei-lhe a atenção para as colossais esferas metálicas. Ah, ela sorriu e me deu um presente ainda mais inesquecível: "você é de onde?".

Só mesmo Deus para por uma brasileira tão européia em meu caminho! Era de São Paulo e tinha acabado de chegar de Paris.

Contudo, ela não quis descer no Atomium, então nossa conversa foi interrompida. Mas aquele anjo nem imagina o que um bom português faz com um sujeito isolado na Europa.

Obrigado, minha compatriota. Por um momento, voce esquentou meu coração e me fez estar em casa. E nem ao menos perguntei seu nome...

Agora, preciso ir. Eu e meus amigos japonenses temos um ônibus nos esperando. Afinal, ainda não achei a Grand Place.

Au revoir!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O que ficou?

Voo 4182 (TAP); 03/10/10.

Enfim, partindo. Embarquei em um avião da TAP com destino à cidade do Porto, para fazer uma conexão a Bruxelas.
Estou só. Pelo menos, nesta viagem. Até eu acho que foi uma loucura, mas me pareceu o certo a fazer.
Agora, uma palavra me descreve: ansioso.À minha frente, o vôo, o controle de imigraçãoo e todos os vinte dias na Europa.
Mas vai dar tudo certo.
Parte da ansiedade é pelo que não está indo comigo, pois quem parte sempre deixa alguma coisa. No meu caso, alguns pedaços de coração. Porém eu voltarei para buscá-los.
Só espero que esses vinte dias não os façam diferentes. Que a distância não os lime de um jeito irreversível.
Pois tudo o que eu quero é que eles se encaixem novamente.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Se eu pudesse...

Cientistas do observatório espacial Herschel deduziram que o acúmulo de vapor d’água em torno da gigante vermelha IRC + 10216 é causado por radiação infravermelha. Segundo os estudiosos, os raios emitidos por estrelas adjacentes atingiriam o cinturão de poeira que circunda a gigante vermelha, decompondo moléculas de monóxido de carbono e outros compostos, liberando oxigênio. Este se ligaria a moléculas de Hidrogênio e pronto! Água no espaço.

Mas aonde quero chegar com isso?

Deus consegue retirar água de pedra. De pedras espaciais.

E nós? O que fazemos?

Com que propósito criamos?

Seria apenas para o deleite do nosso ego? Seria só uma natural manifestação do espírito?

Nesse momento em que observo o caminho à frente, percebo que toda criação do homem deveria sonhar em ser perfeita como a d’Ele. Pudera eu inserir um código, uma lei invisível em minhas letras; uma radiação qualquer, um sopro, um canto.

E quando tu me lesses, minha luz devassaria teu íntimo, quebrando toda molécula de tristeza, dor e solidão, gerando em lugar um torpor de beleza, a embriaguez da esperança. As estrelas em teu olhar, em vez de vapor, manariam lágrimas – estado da água produzido apenas pelo coração.

E tu suspirarias... Diante do horizonte, lançarias um beijo ao infinito, caminhando de alma leve e apaixonada.

As letras, com o tempo, ficariam no chão das tuas memórias, no ocaso de teu peito. Mas a minha luz, o meu canto – ah! Isso tu levarias sem que soubesses, como sempre carregamos as partículas divinas que nos visitam.

Contudo, são elas que nos fazem o sol nascer nos dias frios. E nos trazem chuva, quando temos sede.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Deus, estrelas, poesia


Sou da astronomia um colega distante. Colega não, admirador. Conheço-a de vista, mas ela nem sabe o meu nome. É que a minha inteligência é igual àquele garoto tímido que ama platonicamente a menina mais bonita da escola. Ai, essas musas tão distantes!
Fascinam-me não só as jóias que se estampam no escuro da noite, mas as imagens de quasares, galáxias, nebulosas. Quanta maestria na dança do universo! Que beleza e força!
Não vejo como olhar o céu e não pensar em Deus. Que outra mão projetaria tudo isso? E logo dá uma vontade marota de entrar em uma espaçonave e admirar a minha Terra – esse globo azul tão fotogênico.
Ah, Mãe-Terra, como te maltratamos com guerras, lixo e descaso! Tu e tuas irmãs-estrelas refletem a grandeza do Pai em vossa formosura. Como dói ver-te assim: abandonada.
Se ao menos tivéssemos - os homens - o dom da poesia, enxergaríamos o belo em toda coisa e circunstância. Não só na lonjura dos espaços imaginados, mas em qualquer das pequeninas criações, veríamos Deus. E amaríamos tudo, porque tudo reflete a perfeição.
E por que misturo astronomia, poesia e Deus? Simples, tirando a física, poetas e astrônomos são os mesmos apaixonados, que se põem a vagar pelo céu noturno. Afinal, só contempla estrelas quem já se perdeu no olhar de uma mulher. E para ver Deus, é preciso amar primeiro.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Perdão (tomara que chegue até você)

Eu corri por anos inteiros. Fugi, como se me fosse possível estancar o sangue derramado.
Mas cá estamos.
Ignoro se meus espinhos ainda amam tua carne. Nem mesmo sei quão fundo te encontraram. Mas eu sangrei.
Meu vício é tão nocivo quanto um delírio. Teço uma teia de flores e de encantos. Agarro-me qual simbionte ao teu amor até que fiques indefesa. Então te aplico o ferrão do abandono.
Mais de uma década me custou entender isso. E só o pude, graças à ferida que te causei, que ainda me sangra.
Porém não o fiz por mal. Não o faço. É minha natureza fugaz. Ardo com uma intensidade só comparada ao tédio com que me apago. E as cinzas - ah! as cinzas do remorso... elas me consomem.
Um dia, valha-me Deus, estarei de novo à tua frente. Mas só quando puder enfrentar a dor que nos causei e consiga perdoar a mim mesmo.
Até lá, não descreias: os maus também choram. E cada lágrima é um passo à regeneração.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Verdadeira Vergonha

Encontrei um velho amigo no Dia dos Pais. Trabalhava de garçom. Conversamos um pouco e logo me perguntou se não tinha filhos. Conhecemo-nos há tempos, mas nossas famílias ficam a portas de distância. Respondi que ainda não os tinha. Ele, por sua vez, contava com dois.

- O mais velho tem quatorze anos e já me dá um trabalho danado! Pelo menos o moleque é estudioso. E eu sempre digo: "estuda, rapaz! Pra não virar garçom!"

Confesso minha parva ingenuidade para a vida.

Em época de eleições, quando árvores genealógicas se infiltram no poder do país, quais antigos clãs, ou bandas ou um câncer, ouso indagar se, por trás das grades da impunidade sem-vergonha, esses pais dizem: "seja firme, rapaz! Pra não virar corrupto!"

Ainda não atingi a maturidade a que os anos me obrigam. Sonho, amo, idealizo. Não esperava que a vida forçasse um homem probo a ensinar o filho a ter vergonha da sua origem humilde. A pior escravidão faz com que nós, cativos, acreditemos na sua ideologia. Mas não. Não quero mais.

Não quero dizer a meu filho que minha profissão não presta, enquanto outros ensinam os seus a roubar.

Ainda sonho com a derradeira Lei Áurea. Vejo um mundo pautado pela virtude que se é, e não pelo poder que se aparenta. Preciso acreditar nisso.

Julguem-me um tolo, um histrião. Aceito qualquer veredicto. E compreendo as decepções que me aguardam. Mas prefiro morrer infeliz, aos prantos, a viver com um podre sorriso, criando filhos como abutres.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Filosofia de Metrô

Seria suicídio ou destemor comer
algo que há tempos me enoja?
Afrontar o pudor que esse odor me causa
é bravura ou tolice?

Mas não é hora de pão de queijo.

Bravura. Bravos somos todos,
Sob a tonelada de existência e carregados,
transitórios que somos, pela nossa leveza.

Não sou mais o mesmo. Nunca fui.
Mas meu olhar ainda é tão perdido
quanto o da minha infância.

O que mudou foi a idade do espírito,
minha crença na vida e, é claro,
meu estoque de esperança.

Nunca será hora de pão de queijo.

Poesia

Trago em mim um eco
Tão agudo e constante como
A certeza (condenação) de existir.
E existo. E ouço o ruído a todo instante.

Assim como teus olhos, teus belos olhos!, são teus
E te foram dados pela genética, por Deus
Mas que são de tal forma teus que parecem
Ter vindo junto com a tua própria essência,
Com aquilo de ti que era e será.

Também meu eco é mais que uma dádiva
E me diz como sou exilado nesse mundo.
Meu mundo. Nosso mundo. De ninguém.

E grita sempre que me vejo só
Como a saborear meu sangue perdido.
É como um carrasco a me aplicar a pena:
Abrir as portas do mundo a mim mesmo
E mostrar aos outros tudo aquilo que eu vejo
Sem nem saber de que se trata.

Mas como ele grita!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Beleza

Trouxe para o dia um sonho:
Completar de beleza o mundo,
Espalhar encanto aos ventos,
Ver na vida a vida que nela canta.

Ah! Se ao menos tivesse a música
Ou o dom do mármore!

A arte em mim é esforço literário
Uma pena de trabalhos forçados.
Pedreiro é o que sou dos versos
Como da rocha Gaudí foi poeta.

Mas tenho esperança.
Apesar do ser que em mim carrego,
Quero marcar meu nome em glória
Pelo que de mim ao mundo entrego.

E se um dia alguém, de emoção, de amor,
UMA lágrima vertesse ou suspirasse pelo meu verso,
Minha vida, então, seria bela.
Eu poeta, enfim, seria.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Insônia e Demônios

Cá estou com meus demônios. Comecei assim um poema que não terminou bem. Era um soneto. Batizei-o “Cedo ou Tarde”, em homenagem às tentações que nos espreitam. A idéia até que era boa. O poeta, nem tanto.

Agora a madrugada se intromete, ao som de Beethoven, enquanto aprecio a minha insônia. Ah, companheira! Tu e os demônios são fiéis na danação. Uma hora tu vens. Cedo ou tarde eles vencem. Hoje, vieste.

Sei que não posso reclamar. É graças a ti que às vezes escrevo. Ou leio mais um pouco, ou assisto de novo àquele filme cujo início jamais alcancei. Chega a ser divertido.

O chato da insônia, contudo, é imaginar com quem mais ela dorme, a lasciva! Quantas outras janelinhas estão a competir com as estrelas? Quantos não estão a escrever ou a compor? Talvez Beethoven também se deitasse com ela.

Mas me preocupo mesmo é com outros amantes. Certamente alguém não dorme agora, por fome – sua ou dos seus. O estômago é uma sirene pela noite.

Vou à janela espairecer e olhar as estrelas. Está frio lá fora. Especialmente na calçada onde se deita gente como eu.

Penso, então, no gelo de alma, na fome de paz, de amor.

Nesse momento, alguns sofrem de angústia. Consciência culpada. Medo. Solidão. Talvez chore a mãe do rapaz que ainda não voltou para casa. Talvez não chore, mas certamente o espera acordada. Há quem vigie o leito de um hospital. Outro corre ao telefone.

Quanta insônia no mundo, enquanto reclamo da minha! O que me conforta um pouco é saber que há quem não durma, porque pensa em resolver o problema dessa gente sofrida. Desse povo cujo sono é um pedaço de pão, uma cama, um cobertor. Uma bolsa de sangue, um órgão, um telefonema. Salário, amor, amizade, paz, filhos, pais...

Ah, minha amiga! Gruda nesse! É ele que vela por quem sofre. E não te preocupes com a solidão, caso a dor escape do mundo. Sempre haverá os que não dormem, por mera paixão.

Pronto! Não disse? Chegaram os demônios.

Dança Comigo

Dança comigo esta noite
É do amor o pulsar
Que me enleva e embala
Em teu leve soar

Cola teu amor no meu
Encontra meu passo
Aos versos de beijos
Te guio em meus braços

A hora é só nossa
O tempo não conta
Ao bailar de dois astros
Do espaço à sombra

Dança comigo
Esta noite sou teu
Em vida e em sonho
Esta noite só teu

Em vida e em sonho
Só teu, sou teu
Dança comigo
Dança

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Hoje acordei de luto

Hoje acordei de luto.
Quando passa, a ceifeira sempre me põe a pensar. Desta vez viajei até minha infância perdida. Aos verões passados em Araruama.

A cada manhã, um mergulho na lagoa, de máscara e pés-de-pato (!), caçando tesouros distraídos ou ritualísticos (Iemanjá, perdão!). Ou apenas pedras e conchas mesmo. Tudo me servia. Nada prestava.

E quando o sol diminuía o maçarico, futebol da molecada! Disputas acirradas e emocionantes! O tira-teima nos lances duvidosos eram altos palavrões. Não raro alguns socos e pontapés também. Mas nunca o rancor. No dia seguinte, estávamos todos lá novamente. Pés descalços, calções surrados, bola vazia, chuva...

Nem sequer nos dávamos conta de toda a natureza que nos cercava. Da fartura nos coqueiros que freqüentemente assaltávamos, da límpida água da lagoa, da brisa refrescante que reinava pelas tardes afora.

E aquela fatídica noite, quando a luz acabou no condomínio inteiro? Sentamo-nos ao meio-fio, admirados com todas as estrelas que desafiavam o negrume noturno. E procuramos o Cruzeiro do Sul e as Três-Marias, amando todas as outras que se punham no caminho. Que presente essa noite bendita! Deu-me sonhos de beleza e infinito. Foi meu berço de poeta.

E o futuro? Era tudo tão possível que nem pensávamos nisso. O futuro era a próxima aventura, nada mais. Qual criança tem limites?

Mas o amanhã chegou em dias de cúmulos-nimbos. A criança feliz foi sepultada ao me dar à luz. Sete palmos de realidade; caixão de cimento.

A ti, moleque, meu luto. A mim, os pêsames...

E a saudade que me pega em lágrimas.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Até quando?

Não chove em meu peito. Estou ressecado e quebradiço como um graveto, à espera de um pé que dele se aperceba.
Escrever se tornou um martírio. O tédio me atrofiou a alma: não consegue produzir um suspiro sequer. Faz tempo que só boceja.
A cada ideia abandonada, por conta da inépcia em talhá-la no papel, pergunto-me se não é hora de largar essa utopia. Abandonar o sonho de escrever um livro que me chame de escritor. O ato primário e supremo de romper a casca e findar a própria gestação.
Um livro que narrasse uma epopeia de amor, bravura e lealdade. Que mostrasse ao mundo o caminho da virtude e soprasse ao espírito combalido um instante a mais de esperança.

Quiçá não escrevesse um romance
Mas um poema? O Poema!
Livre em verso e lindo em fundo,
Forjado em amor e magia.

Que encantasse aquela sereia
A cujo canto se rende Netuno,
Entregue à força vil e divina
Que no ser da mulher se oculta.

E inspirasse o tímido rapaz meu verso
A uma rosa e um beijo ofertar
À deusa que lhe fez refém do luar.

Pois em veia de homem corre paixão
À espera de fagulha que lhe dê a poesia
E lhe arda na audácia de amar.

Mas dessas mãos não sai mel que adoce a vida alheia. Estou ao tédio preso como em um conto de fadas, repetido por um velho avô, todas as noites:
“Era uma vez um traste humano que cuspiu nos pés de um deus tirano. E este, vingativo, deu resposta em maldição:
Terás alma de poeta, sedenta de beleza! Mas, em ti, um coxo coração viverá - incapaz de alcançar d’alma a sutileza. E vagarás em noite eterna sobre a Terra, sem lugar: o corpo seco rastejando e o espírito a sonhar!”
E agora eu ouso buscar o Olimpo, sem ter pernas que lhe corram o caminho. Então espero. Aguardo a chuva que me torne fértil e criativo, devastando a secura de talento com que fui malsinado.
Contudo, ela não vem. Então indago: não é hora de aceitar o peso do tempo que se vai, enquanto eu passo?
Mas quem responde?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Não Quero

Eu não quero um mundo de cimento.
Não quero um tempo de relógio
E nem um sono de bebida.

Não preciso do norte de ninguém!
Minha bússola vai ao leste sem hesitar.
Ou quem sabe ao sul, talvez ao céu?

Minhas paredes são o vento nos cabelos.
Meus pés são de areia.
Minha música, de mar.

Para que viver em prosa e sonhar em versos?

Cada estrofe é um suspiro.
Todo instante é um gole de beleza - até cair!
E cada gesto de amor é olhar atento e sonhador

Pela janela do infinito.

Meu Nome

Sonhava em ter um nome de rei. Ouvir me invocarem com deferência.

Mas o tempo correu e os sonhos de menino envelheceram. Não morreram, mas envelheceram. Ora, se me concedessem um desejo quando criança - qualquer desejo - talvez eu pedisse um brinquedo novo, daqueles que nunca pude comprar. Pouco tempo depois, nas curvas da adolescência e à beira de um adulto, "minha vida por um carro"! Hoje, só quero uma virtude.

Sem virtude, que me chamem Dom ou Majestade, não importa! Será de boca! Só um homem virtuoso inspira emoções verdadeiras. E não é com reverências que o saúdam, mas com o próprio suor, na esteira do exemplo. Ah, que sonho: inspirar a humanidade!

Mas como dar esperança e não tê-la em mim? Carrego apenas palavras. Um deus de lábios, enquanto o templo de Deus é um coração.

Martin Luther King tinha um sonho. E um negro governa o seu país.

Também eu tenho um sonho.

Um dia, antes que essa vida me escape, conquistarei uma virtude. E quando cruzar de joelhos a trilha que iniciei como uma notícia, direi:

"Senhor, não te vi com meus olhos, mas te busquei na palavra amor. Na caridade. Na justiça.

"Não tive um nome de rei ou de apóstolo, mas dei minha vida ao nome que me deram. E hoje, se me pronunciam, alguém deixa de morrer à fome, e lhe afugentam o frio com um abrigo e não mais cruzará a vida em uma calçada!

"Meu nome é um órfão ter pai! É uma criança na escola! É todo caído receber auxílio!

"Meu nome é Teu Servo. Teu Filho.

"Enfim, sou Digno.

"Estas lágrimas nas mãos falam por mim."

domingo, 4 de abril de 2010

Um soneto para ti

Não fosse tão humano e tolo,
Faria tudo por teu afeto merecer.
E mesmo do Éter tornaria concreta
A loucura terna que me fazes padecer.

Fosse eu um deus e o cosmo teu seria!
Uma estrela ofuscaria o sol do meio-dia
E pintaria o céu a cada passo teu:
Ora prata, ora ouro. Prata. Ouro. Prata. Ouro...

Fosse a própria natureza obra minha,
Teriam teu cheiro as pétalas das rosas
E a melodia que em tua pele se dedilha.

Fosse eu mais tolo que humano - um poeta!
À tua essência viveriam meus versos:
Imortais como o amor que te dedico.

quarta-feira, 24 de março de 2010

De pé!

Onde estás que não te reconheço? Que fizeram de ti?
Só te inculpaste de ter um coração vadio
Apenas anelaste por encontrar um abrigo
Mas não contavas com tanta vilania!

Quanta dor te aflige agora!
Que desespero se apodera de ti!
Mas onde estão as tuas forças?
Roubaram-te a coragem também?

O mais assustador é saber que tu não sofres só.
A humanidade é solidária em padecer na solidão.
Olha em volta!
Mira a agonia de outros como tu, que choram para dentro.

Tuas lágrimas caem por si, mas se unem às outras
No oceano da tristeza comum da dor privativa.
Mas olha de novo! Desta vez, para cima! E ouve:
Há passos nas nuvens!

Tu não gozas do pioneirismo do coração partido.
Outros caíram como tu e estes à tua volta
E prantearam uma dor sem limites, cegos de tormento.
Mas onde estão agora?

Onde estão seus corpos tombados pelo desespero,
Suas almas agrilhoadas no cárcere da solidão? Onde?
Que foi feito daqueles corações despedaçados e humilhados,
Cujos sonhos esvaeceram - ruínas de um império nunca havido?

Eles se ergueram!

Também tu conseguirás fazê-lo!
Não esperes sentir o baque no chão, para te levantares!
Nesse abismo em que mergulhas, não há fundo que te baste:
Só há esta queda perpétua, até que te canses e te ponhas de pé!

Na vida, todos nós apanhamos como Rocky.
Perdem-se as contas das pancadas recebidas
Mas de algo te asseguro: aguarda o sino!
Estarás de pé a gritar o teu amor pela vida!

Porque teu corpo se tomba em nocaute
Mas teu espírito dança como Ali.
Esquiva-se, pula, cruza todo o ringue
E bate ferozmente como Gandhi!

Essa é a tua desforra! A tua vingança!
Tu não és como teus inimigos!
Quebrem-se teus dentes – sorri de volta!
O sorriso hemorrágico do perdão!

Quebrem-se teus braços! Que importa?
Espanca aos beijos! Mata de ternura!
E se te levarem as pernas, não te abales.
Paira acima do despeito e da mágoa!

Porque é só isso que terão de ti:
O gosto ferroso do teu sangue
Mas não o da tua derrota -
Nem física ou moral!

Porque tu padeces da loucura irracional pela vida!

E aos teus inimigos, então, oferece-lhes um aviso:
Que te observem agora de joelhos, pois a visão é breve.
Tão logo te ergas e paires no ar, que te mirem dos pés a sola:
Em letras apagadas verão os próprios nomes gravados -

O único vestígio da chaga que hoje te devora.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Ah! No meu tempo...

Queria viver no tempo a que pertenço,
Quando o mundo ainda não era de concreto,
Os carros tinham vida e quatro patas
E cada chapéu, nas ruas, se saudava.

Quanta falta me faz esse tempo que não recordo!
Tudo hoje é tão agressivo e plano!
Cadê o charme do mundo? Onde o glamour?
Só o que vejo é máquina, carne e pressa.

Deixaram para trás as flores e o pôr-do-sol,
Ofuscaram as estrelas com luzes fabricadas,
Erradicaram da Terra o meu romantismo.

Ao fim de cada dia só me resta a solidão de suspirar,
Aguardando as damas do céu para a valsa prometida,
Um fóssil cujo tempo não é quando – já foi sem o esperar.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Daydreaming

No intervalo de um olhar
Ela me veio como um sonho,
Uma visão de um oásis,
Misterioso e concreto devaneio.

E tão logo a vi, presto embarquei
Na caravela abstrata das almas,
Rumo à terra que pronta me veio
Mas que digo que é minha.

Aqui é meu lar, meu feudo.
Mundo de magia e sonhada beleza,
Onde, com ela, faço como quero:
Admiro, conquisto, me caso e deliro.

E reino tão forte e terrível – Ivan!
E tão doce e fiel – o Cristo!
Que meu nome é por todos saudado
E por ela meu ser é amado.

Sou eterno. Imutável. Invencível...

Mas o que é isso?
Murcham-se-me as flores do jardim!
Cada pétala desfeita em nada!
Que vil praga és tu que me atacas?

Do palácio tremem as colunas,
As paredes vacilam e se inclinam,
Mas nada desaba.
Tudo se aniquila.

Oh, fugaz agonia!

Por que me arruínas, catástrofe enevoada?
Por que me roubas de meu trono até os escombros?
Por que me trazes de volta e a fantasia me levas?

Que me resta?

O que de mim resta?

A leveza do século que sufoca,
O peso do ano que nem se vê...

O que me resta é a vileza!
A tirania do real que não tolera,
Nem mesmo se onírica, a grandeza
E me rouba do delírio só para dizer:

“Nem sonhando o tempo te pertence!”

E da mulher que comigo foi rainha,
Fica só um quadro que se move,
Uma lembrança viva de um tempo morto,
O amor de uma vida, cujo nome nem sei.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Nasci sob uma estrela toda indiferente
E por nada esse mundo não me satisfaz.
Meus olhos não têm foco no lado de fora.
Só escuto a tormenta que aqui dentro faz.

Minha boca quase nunca tem o que dizer
Pois só ao coração prefere responder.
Mas essa pedra que me bate pela alma afora
É feita de granito com mel de recheio.

E sempre que suspiro por todos os poros
E me estremeço como gelo tivesse no sangue,
Sei que é a pedra que se racha ao meio.
Sei que é a emoção que começo a viver.

Mas como não sei bem do que ela foi feita
Nem o que de mim ela me quer fazer,
Me contraio como o ventre de um grande vulcão

E descubro que essa bomba que ora me percorre
É o sussurro de um anjo de inspiração.
E quando pego no caderno sinto que me escorrem
Lágrimas do braço e mel do coração.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um pouco de saudade

É tudo tão escuro quando ela se vai.
Em meio ao povo eu caminho sem alma, pesado, como se a pureza do mundo me fora roubada.
Estar só é estar sem ela.
A solidão só faz sentido quando nos despedimos.

Vazio.

É belo dizer que nunca me vejo abandonado porque trago alguém no coração. Mas é falso. A distância perfura o peito que só traz uma ideia.

Viver com uma ideia não é coisa minha. É para quem vive de sutilezas. Dessas eu bebo e me embebedo, mas é da presença que me alimento.

Consigo até fingir a força e me dizer que posso viver em mim. Mas é só um placebo para o cancro da solitude, que devora.

Quero mesmo é ter-lhe a cabeça recostada no meu peito. Afastar-lhe dos olhos aquele fio de cabelo, teimoso, e prendê-lo atrás da orelha. Afundar meus lábios em seu rosto e sentir cada parte do meu corpo em contato com o seu. Mãos e mãos, pés e pés, pele a pele.

Quero tê-la ao meu lado. No coração, apenas, não basta.

Lembranças tenho do que já tive. Se é para viver disso, de que importa existir? A vida é para frente. É progresso.

A ideia que tenho só não dói se for vivida.

O resto é apenas o sol se pondo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Sim, é contigo mesmo!

Por que esse desprezo me votas?
Que te fiz, senão te olhar?
E se te olhei foi por tua graça,
Que a todo olhar encanta e arrasta!

Por que tanta surpresa,
Se te floresces à primavera?
Se queres esconder tua beleza,
Anda nua sob um véu!

E nada de transparências ou justezas!
Serás botão no jardim das delícias.
E enquanto te guardas ao Futuro,
Ele se encanta na vaidade alheia.

Entenda:

Não te olho como o lobo que sou,
Mas como o poeta a que aspiro.
E se tenho as presas do desejo,
Quero a pena do suspiro!

Mas não te enganes, tampouco!
Não quero que me olhes de volta
Ou que me retornes um sorriso!
Apenas passa! E não finjas que incomodo!

Afinal, vivo à poesia, mas não deixo de ser lobo.
E se ora escrevo à tua beleza e canto à tua graça,
Se me pedires com jeito, largo a pena e mordo!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Realidade

Quando me sento, às tardes ensolaradas
Desta vida ainda jovem e tão nublada,
Me vem um desejo louco, uma vontade sombria
De olhar o nada a fundo e compreender.

Por que existe essa membrana invisível,
Essa teia que me prende e submete,
Esperando o ataque anunciado, o golpe iminente
Da besta que sempre me espreita?

Que peso é este que me abate os ombros,
Que me chumba ao solo e me exige, a andar,
Um passo falso, vacilante, da serpente o rastejar?

Quando me sento, às tardes ensolaradas,
A mente voa para o nada aqui dentro
E só não cai a lágrima, porque não a compreendo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Precisamos Conversar...

Pega essa rosa, minha amiga,
É tua.
Pensei num buquê, cheio de cor e perfume,
Mas queria que fosse a rosa como te quero:
Una.

Como dói ver-te assim – enamorada!
Tu amas um ser encolhido, em gestação.
Uma besta de muitos ardis e tolos planos,
Uma Hidra de plural paixão.

Cada mente que possuo, cada face,
Existe em seu próprio universo.
Sente e toca; pensa e ama.
E o corpo – onde fica? Aonde vai?

Tens sido fiel, minha musa, e digo mais:
Como nunca logrei.
Fui adúltero. Infiel de tua presença.
Réu, confesso: outras vidas tentei.

Mas, sem forjar remorso, explico:
Cada face é domada por sonho distinto.
Esses todos que sou (nada) não se calam
E nem se extinguem.

Mas tu, amada! Nunca me abandonaste!
Sufoquei-te em cores, sob mil andrajos!
Abafei teu canto doce ante notas carnais!
E sempre, no fundo, lá estavas!

Não me condenes, se puderes.
O mal que te fiz – faço por ciúmes!
Conheço-te, anjo! Quimera! Meretriz!
Teus leitos são muitos! Teu peito é o mundo!

És fiel em tua presença, jamais em teu amor!
Outras juras eu leio de grandes nomes passados.
Rivais meus, sim, e ainda assim idolatrados!

Trabalham-te, como Deus à natureza.
Cada letra, cada verso - é amor! A Beleza!
E eu, inseguro eu?
Tenho medo.

Não sei que em mim vês.
Ofereço-te jóias daninhas.
Rosas brutas e mesquinhas,
De rubras pétalas, mas frias.

E amo tanto a tua presença!
Amo tanto, que te afasto! Fujo! E me guardo!
Tu me ofuscas as mãos trêmulas e inábeis,
Que em vão passeiam por teu ser sublime,
Nesse roto afago, nesse beijo amargo!

Abandona-me, Afrodite!
Até que a tinta me seques do peito
E me quebres a pena já tão torta!
Onde pus a cabeça, que me arrisquei
[a te seguir?

Por que não te abandono de vez?
Tenho mil faces, já disse! Amo outras, confesso!
Mas n’alma sou tão tolo, e tão cego e tão louco,
Que ouso sonhar em ter nome e, por isso,

Escrevo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Minha Luta

Um novo dia!
Tanta esperança e vida!
Que sol belo me desperta!
Que luz agora - em mim - brilha!

O que virá em seguida?
Que será de meu crepúsculo?
Um sorriso, uma lágrima,
Um alô, uma despedida?

Que seja!

Que a hora morra ou viva,
Que me beijem na partida,
Esse dia é meu! Só meu!

E ainda que vença ou de joelhos desabe;
Que não mude o que em mim não vale;
Que me anoiteçam o peito e não mo embalem;
A glória reside sempre no olhar -

Nesse olhar que não se abate!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Promessa

Sou um homem de paz
Com muita guerra por dentro.
A branca pomba na mão
E a espada no peito.

Um chute perfeito! Na trave.
Um premiado livro - em branco.
Uma grande promessa... Nada mais.
Um belo futuro. Um sempre quase.

Só fui herói em minha mente:
Males e catástrofes venci;
Juras e suspiros arranquei;
Velhos e crianças salvei.

Mas, no fim, quando os sonhos tiram férias,
Quando tudo que me resta é o real, só o real,
O herói continua aqui, sempre aqui!
A mente solta, o coração preso!

Para que tanta pena sem tinta, meu Deus?
Tanta vida sem história?
Essa mente nas nuvens, incorrigível!
Esses pés na lama, irremediáveis!

Quando morrer, uma homenagem:
Aqui jaz um escritor de livro algum;
Viajor de mundos em seu leito e
Um grande herói de nada feito.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Sonho

Sempre soube que o tempo passa.
De cor, mudam os dias e os cabelos,
Assim como caem as folhas e os seres.
Mas e os sonhos?

Tantos anos e ainda os vejo aqui. Dentro.
Lutando, vibrando, vivendo.
Como o mundo é diferente para eles!
Como têm tanta certeza e coragem!

Intimidam-me, de tão atrevidos!
Desafiam todo o meu alicerce e
Escarram na monotonia dormente,
Camuflada nos planos do dia.

Riem-se de tudo esses infames!
De respeito, nem sequer um pingo têm
Pelo sossego dos outros...

Insônia, és filha de meus sonhos!

E me pergunto com o tempo, amigo e conselheiro,
Se esses diabretes não lhe sofrem o bocejo.
Ele, tão poderoso e paciente, apenas me responde
Que sonho vive onde só há mistério.

Que nasce do desejo mantido em cativeiro
E se alimenta d'alma que não sabe a devaneio.
No fim, quando a própria vida se consome,
A vontade permanece e vivo segue o sonho.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Eu?

Quando nasci, já vim de costas.
Querendo voltar, sair, sei lá.
Ficar é que não dava.
Não pertencia, não encaixava.

E por que diabos saí no Brasil?
Terra de malandro, sambista e peladeiro.
No gingado e na vida, amigo,
Vai ou racha! Não fica no meio.

Mas no samba, sou gringo.
Da mãe-bola, bastardo.
Um malandro quadrado,
Que só vive fugindo.

Vou lá, mas quero cá.
Se fui, é pra voltar.
E se paro,
Deus! Quero andar!

Mas no meio me viro:
Meu Pai, que eu faço?

Vou?
Fico?
Volto?

Diabo! Onde é que me encaixo?

sábado, 2 de janeiro de 2010

Feliz Ano Novo

Outra vez.
Antigas promessas,
Mesma esperança.

Muito mudou, é certo.
E por que tudo é reprise?
Mesmos olhos no horizonte;
Ainda a treva na fronte.

E pulam-se ondas.
Abraçam-se estranhos.
Estoura-se champanhe.
Festeja-se o futuro.

Otimismo, tolice, que me importa!
Só me livra da ameaça -
Ser um corpo na calçada!
Ao teu escárnio, tua graça.

Só quero escola, saúde,
Comida e segurança!
Dizer que é justo e não se engana
Quem põe fé numa criança.

Contudo, continuo!
Da janela a contemplar
Da tragédia um novo bis
E a miséria a sambar.

Assistindo e aplaudindo,
No camarote da omissão,
O ano novo surgindo,
O homem velho em ação.