sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Museu do Judaísmo

Praga, 18/10/10

Visitamos o museu do judaísmo e tive que deixar a ocasião registrada de forma particular. É um museu simples. Não possui muitos objetos preciosos, caracterizando-se basicamente por ter nomes nas paredes. Nomes e datas.

Vejamos o caso de Adolf Blum (12.III.1905 / 15.XII.1943). Quem foi esse homem? Quem foram seus pais, seus filhos? O nome dele está no meio de milhares de outros, seguidos de datas extraídas de um período macabro da nossa história.

É um museu do holocausto.

A segunda parte da mostra é repleta de pinturas e desenhos infantis. Em uma vila tcheca, mais conhecida como Terezín Ghetto, funcionava um campo de transição para um lugar que dispensa apresentações: Auschwitz. E em Terezín, havia uma ala infantil, como em muitos outros campos de concentração espalhados pela Europa nazista.

O que torna o Ghetto interessante é que os nazistas o utilizavam como propaganda. Filmavam as crianças estudando e se divertindo, a fim de mostrar para o mundo que eles cuidavam bem dos judeus. A realidade era bem diferente.

A austríaca Friedl Dicker Brandeisová (30.VII.1898, Viena – 1944, Auschwitz), preocupada com a situação das crianças, resolveu iniciar um trabalho de catarse por meio de pinturas e desenhos. Fazia milagres para conseguir papel, lápis, carvão – tudo que fosse útil em artes plásticas – e distribuiu para os meninos. A orientação era deixar sair o que lhes viesse à mente.

Em tempos claustrofóbicos, aterrorizantes, a maioria dos desenhos mostrava cenas de alegria, brincadeiras, o dia-a-dia nos dormitórios, janelas abertas, trens partindo... A felicidade e a esperança resistiam ao terror, abrigadas nos corações mais jovens.

Mas veio a proximidade da paz. E a noite é mais escura logo antes do sol nascer. Com a derrota à vista, os homens da suástica iniciaram sua queima de arquivos.
Inspirada por algum anjo, a austríaca reuniu todos os desenhos que encontrou – cerca de quatro mil, guardou-os em malas e os enterrou em Terezín. Logo depois, ela mesma foi para Auschwitz.

As pinturas de esperança, guardadas pela coragem dessa mulher, foram o único registro da existência de milhares daquelas crianças, cuja estrondosa maioria também partiu para o campo da morte. Menos de uma centena escapou.

Milena Deimlová (09.XII.1932 – 26.XI.1942 – 23.X.1944) fez um desenho sobre o dormitório feminino. Contudo, o que mais me chamou a atenção foram as datas: nasceu em 32, foi para Terezín em 42 e foi executada em 23 de outubro de 1944, quase completando doze anos.

Em 23 de outubro de 2010, estarei voando para o meu Rio de Janeiro e Milena, há 66 anos, encontrava o suspiro final.

Milena e Adolf,

Não há palavras que diminuam a monstruosidade que fizemos. Todos nós.

O nazismo foi só a máscara do demônio que vive no peito dos homens. Ele se alimenta do ódio, da intolerância, mas sobrevive graças à covardia e à omissão.

Deixamos vocês morrerem nas mãos dos nossos monstros.


Ao meu lado, uma canadense estava arrasada: “Pensar que isso ocorreu chega a me enlouquecer”.

O que ela parece não saber é que isso ainda ocorre todo dia.

A suástica de hoje é a fome. A farda negra é envergada pela miséria, pelas epidemias, pelas guerras civis e suas limpezas étnicas.

Adolf e Milena continuam sendo executados nos campos de concentração da África, da América Central, do Brasil. Crianças ainda trabalham como escravas e, não raro, no submundo da depravação. Pais vêem seus filhos definharem ou serem brutalmente assassinados. Esposas e mães são violentadas. Muitas vidas são perdidas.

E isso ocorre hoje! Agora!

Chega a enlouquecer a mente presa nas tenazes da cegueira, da omissão. Mas o Führer continua na Terra, onde sempre esteve, à sombra de nossos olhos fechados.

Milena, Adolf, somalis, etíopes, congoleses, haitianos.

O sangue deles é derramado pela injustiça que governa os homens. Dormimos vidas inteiras, ocupados com carros, casas, moda, enquanto o terror ainda rasteja pela Terra.

Que cada um faça o que e como puder. Nossos olhos não estão mais fechados, mas nossas mãos precisam se mexer.

Pois até quando deixaremos a esperança morrer nos corações infantis? No pranto de pais e mães?

Até quando crianças vão sonhar com brincadeiras, enquanto vivem tormentos infernais?

Cuidemos dos nossos filhos, da nossa família. Aqui e ao redor do globo. Não há nada mais digno e urgente a fazer.

Cuidemos dos nossos.

Enquanto a omissão lançar um véu sobre nós, a insanidade reinará sobre a Terra.

Milena foi executada. Adolf também.

Milena e Adolf.

Que esses nomes sejam mantras de força em nosso espírito. Um hino contra o mal da humanidade. Já é hora de cessar tanta loucura, ou vidas continuarão caindo aos nossos pés.

Deus nos ajude! Mantenha nossos olhos bem abertos, para que o sangue não manche nossas pálpebras. E nossas almas.

A toda vítima da indecência, da selvageria e da crueldade: perdão! Eu permiti a sua dor. E ainda permito.

Mas finjo que não vejo.

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