sábado, 27 de novembro de 2010

Espelho (II)


Amigo,

Devo pedir que me perdoe. Há tempos, caluniei tua imagem e te fiz parecer um demônio. Quis te expulsar da casa em que vivemos e quase te ameacei a vida.
Mas estava errado.

Agora que te vejo à minha frente, não enxergo mais tua monstruosidade. És apenas mais criança - a tua maior virtude.

Em verdade, não somos assim tão diferentes. Ouso dizer que seríamos idênticos, exceto por alguns detalhes...

Tens um sorriso pueril, como o que já tive um dia. Hoje, contudo, carrego o cenho franzido o tempo todo, como se a preocupação do mundo fosse minha.
Em teus olhos, a chama da paixão ainda arde como o sol de janeiro. Tenho apenas o crepitar de uma velha fogueira, já quase apagada.
Teus cabelos despenteados e o ar esbaforido sugerem aventuras e uma vida em movimento. Estou sempre sentado no banco da praça.

Eu te invejo, meu velho. Pelo teu sabor de vida - esse tempero de paixão. Tu respondes aos impulsos do teu peito. Teu mundo não tem leis descobertas. É só o constante mistério da abstenção do amanhã. O universo em ti é só presente.

Sim, eu te invejo. A minha razão, cheia de cálculos mortos, é uma rédea à tua força, a essa maré sempre cheia. Com isso, eu te entristeço, bem o sei. Mas também fico triste, por minha vez. Aliás, é nossa única hora de comunhão, pois, na tua alegria, estou geralmente em culpa.

É, amigo, tua lágrima desce pelos meus olhos. E sei que estás esperando a alegria entrar pela porta a qualquer hora e até nisso és mais feliz: tens esperança. A mim, restam os cálculos das perdas e dos ganhos não vindos.

Choremos juntos. Não mais te quero longe. Tuas lembranças me mantêm vivo.

Mas o que é isso? Sorris?
Ah, como te invejo...

Desista, contudo. Ela não vem. A poesia se foi. Está na terra dos versos de solidão - os que se lêem no vazio semblante do poeta cabisbaixo.

Entretanto, por consideração a ti, deixarei a porta aberta.
Só não olhes muito - a tua dor vive em mim.
E eu? Eu tenho amanhã, não te esqueças.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sorrir

Estou farto de tristeza!
Façamos uma promessa: vamos sorrir!

Talvez por termos amigos por perto. Amigos mesmo!
Daqueles com quem travamos horas de diálogo sobre a importância de não se fazer nada. Com quem discutimos o ócio do dia e o cansaço que o tédio nos dá. Companheiros que não nos deixam passar a hora sem uma piada - mesmo que sobre nós mesmos, nossas vergonhas e catástrofes pessoais. Oras! É bom sorrir de nossas desgraças! É subversivo. É um riso de rebeldia, rebelião. Tem cheiro de sangue, mas sabor de vitória!

Também podemos ter nos deparado com um céu belíssimo. Daqueles bem claros, em que até aparecem nuvens, mas apenas por capricho do Artista. E sob esse belo firmamento, aspiramos a longos haustos o ar da manhã - poluído, sim, mas refrescante! Que honra é ser saudado pela natureza! Que boas-vindas do dia que começa!

Ou quem sabe acabamos de encontrar o rosto inocente de uma criança feliz? Dessas que só têm bochechas e dobrinhas. Pesadas como ursinhos de chumbo, mas tão fofinhas que não nos descem do colo. Quão adorável é o rosto de um pequeno, que, mesmo sem um dente sequer, consegue sorrir a um adulto enfermo de alma! Sorri e lhe ensina a sorrir. É contagioso. É divino.

Seja qual for a razão, vamos sorrir agora. Agora, depois, adiante.
Por um cão vadio e amigo.
Por um pedaço de chocolate - hum.. Lascivo!
Pelo Real recebido - bem-vindo! (E volte sempre!)
Pelo beijo bem dado - só isso? (Vem cá! Quero mais!)

Sorrir, ainda que sem graça ter ouvido, apenas pelo ato de entregar alegria, é solidário. Mais que isso: é humano!

Porque, mesmo com toda a nossa dor fiel, tudo não passa de uma farsa bem montada. É só olhar o horizonte ou o céu estrelado, que dá para perceber que construímos um pequeno cenário dentro do verdadeiro palco. E toda lágrima, todo desespero, cada vergar de joelhos - tudo(!) não passa de uma cena. Bem ensaiada, mas UMA cena. O espetáculo, afinal, é sobre amor e comédia.

Beijos e sorrisos...

Essa é a poesia da vida.

É tudo que fica.