Amigo,
Devo pedir que me perdoe. Há tempos, caluniei tua imagem e te fiz parecer um demônio. Quis te expulsar da casa em que vivemos e quase te ameacei a vida.
Mas estava errado.
Agora que te vejo à minha frente, não enxergo mais tua monstruosidade. És apenas mais criança - a tua maior virtude.
Em verdade, não somos assim tão diferentes. Ouso dizer que seríamos idênticos, exceto por alguns detalhes...
Tens um sorriso pueril, como o que já tive um dia. Hoje, contudo, carrego o cenho franzido o tempo todo, como se a preocupação do mundo fosse minha.
Em teus olhos, a chama da paixão ainda arde como o sol de janeiro. Tenho apenas o crepitar de uma velha fogueira, já quase apagada.
Teus cabelos despenteados e o ar esbaforido sugerem aventuras e uma vida em movimento. Estou sempre sentado no banco da praça.
Eu te invejo, meu velho. Pelo teu sabor de vida - esse tempero de paixão. Tu respondes aos impulsos do teu peito. Teu mundo não tem leis descobertas. É só o constante mistério da abstenção do amanhã. O universo em ti é só presente.
Sim, eu te invejo. A minha razão, cheia de cálculos mortos, é uma rédea à tua força, a essa maré sempre cheia. Com isso, eu te entristeço, bem o sei. Mas também fico triste, por minha vez. Aliás, é nossa única hora de comunhão, pois, na tua alegria, estou geralmente em culpa.
É, amigo, tua lágrima desce pelos meus olhos. E sei que estás esperando a alegria entrar pela porta a qualquer hora e até nisso és mais feliz: tens esperança. A mim, restam os cálculos das perdas e dos ganhos não vindos.
Choremos juntos. Não mais te quero longe. Tuas lembranças me mantêm vivo.
Mas o que é isso? Sorris?
Ah, como te invejo...
Desista, contudo. Ela não vem. A poesia se foi. Está na terra dos versos de solidão - os que se lêem no vazio semblante do poeta cabisbaixo.
Entretanto, por consideração a ti, deixarei a porta aberta.
Só não olhes muito - a tua dor vive em mim.
E eu? Eu tenho amanhã, não te esqueças.
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