domingo, 20 de dezembro de 2009

Um Conto de Natal

Pesadas nuvens escuras se apresentavam no céu da véspera de Natal. Ainda não era noite, mas o véu de chumbo se antepunha ao sol de tal maneira, que a tarde já parecia perdida.
O ar, carregado de um leve cheiro de terra molhada, já dizia que a chuva começara em algum lugar bem próximo. Além do aroma, contudo, havia muita expectativa.
Uma verdadeira multidão se reunia em torna da praça, no centro da cidade. Ali, em meio a lojas decoradas para a grande festa, bem diante da pequenina igreja, erguia-se um vulto de quase dez metros de altura, coberto por um imenso lençol de veludo vermelho e dourado.
Ao lado dele, um palanque fora montado para abrigar as pessoas mais influentes das redondezas, inclusive o prefeito, que torcia as mãos ansiosamente. Acabara de tecer um elaborado discurso, afiançando novas promessas ao povo sofrido e ainda crente. Agora, era chegado o momento de inaugurar a estátua que mandara construir em homenagem ao Natal daquele ano, véspera das eleições.
Diziam que o artista estrangeiro contratado para o serviço, de muitas consoantes e hábitos exóticos, recebera uma pequena fortuna pelo feito. E exigira pagamento adiantado, além de total privacidade em seu labor. O pequeno galpão, construído para protegê-lo dos curiosos, só foi desmontado hoje de manhã, quando o artista concluíra a tão aguardada escultura. E mantendo-se fiel à sua estranha personalidade, partiu, sem nunca dirigir a palavra a ninguém.
O prefeito bem que tentou checar a obra, mas, tão logo raiou o dia, o povo se acotovelou na praça. Retirar a cobertura, portanto, estragaria o clímax que desejou criar para a cerimônia de inauguração. Achou melhor, então, confiar na fama do artista, que o precedia.
Pois quando um relâmpago rasgou o céu, o prefeito entregou a ponta do tecido vermelho ao padre, figura escolhida para aquelas honras. O velho religioso deu um puxão vigoroso, arrancando a cobertura de uma vez, revelando, de supetão, a aguardada surpresa.
Naquele instante, algumas gotas começaram a cair, enquanto os ventos rugiam com a fúria de mil demônios.
Um silêncio tumular desceu sobre a platéia. Ninguém ousava articular palavra. Diante do olhar de toda aquela gente honesta, erguia-se a mais realista das imagens de Jesus crucificado. As cores, as formas, o sangue... A expressão de dor, mesclada a uma ternura indizível inundava aquele belo par de olhos...
Quão real era aquela estátua! Parecia que a crucificação acabara de ocorrer naquele instante, pelas mãos mesmas daqueles ali presentes. E quem olhasse muito tinha até a impressão de ver-lhe o peito arfando em suplício.
Algumas pessoas puseram as mãos nos bolsos; outras buscaram o toque do cônjuge. Um a um, os habitantes esboçaram algum tipo de reação bem particular, regida pelo império do inconsciente. Porém, não se olhava o vizinho nos olhos. Talvez nem mesmo houvesse a coragem de se contemplar o próprio reflexo em um espelho.
Um trovão retumbou no céu e a estupefação transmutou-se em tormenta.
Uma senhora de idade avançada gritou impropérios ao prefeito, enquanto a chuva aumentava. Dado o pontapé inicial, outros também manifestaram sua ira. Alguns pediam a cabeça do artista. Queriam apedrejar o herege.
"Que pecado fazer isso com nosso Senhor Jesus-Cristo!"
Os ânimos se exaltavam em demasia, temendo-se mesmo um levante. Contudo, a poucos metros do povo reunido, uma fortíssima rajada de vento derrubou um pesado galho sobre alguns fios elétricos. Ao estouro que se ouviu, seguiu-se um breu total na rua. Foi aí que todos se deram conta do terrível temporal que os atacava.
Para piorar, mais um raio cruzou o firmamento, iluminando o rosto do Cordeiro. Apavoradas, as pessoas debandaram em massa. Algumas tropeçaram e, por pouco, não foram pisoteadas. Pânico, gritaria, empurra-empurra. Dentro de poucos minutos, a única figura viva na praça era a estátua, abandonada à força do tempo.
Não muito longe dali, na Ponte Nova, uma mulher ignorava a chuva, o tumulto e tudo o mais que ocorria. Seus olhos se detinham nas revoltas águas do rio que cortava o município.
De perto, na verdade, não era ainda uma mulher. Devia beirar os dezoito anos, esbanjando beleza e frescor, em contraste com os séculos que pesavam em seu olhar. Os cabelos loiros caíam como uma cortina d'água até os ombros, na personificação de alguma entidade etérea - bela, majestosa, solitária.
Com uma das mãos no ventre e a outra no parapeito da ponte, a menina se debruçou. Estava encharcada. Gelada até os ossos. E se o maxilar não estivesse tão tenso, a ponto de lhe dar uma leve dor de cabeça, com certeza estaria tiritando. Mas, quando a alma está doente, o corpo tomba em silêncio.
De um impulso, ela subiu ao parapeito. Sentada, com as pernas balançando em direção à água, ergueu os olhos para o céu tenebroso. Trovões se fizeram ouvir, como urros de criaturas abissais, ansiosas pela chegada de mais uma vítima.
A menina respirou fundo.
Pensou na mãe - viúva, severa, que trabalhava incansavelmente para que ela tivesse um futuro. Ah, um futuro! O futuro! Faculdade, emprego, casamento... Tudo estragado. Arruinara-se por causa de promessas vazias e mãos atrevidas.
Mas estava decidida. O sofrimento e a vergonha iriam acabar, antes mesmo que tivessem início. Bastava um pequeno impulso.
Quando se inclinava mais para frente, contida e impulsionada por forças concorrentes, um movimento chamou-lhe a atenção.
Um vulto considerável flutuava pela correnteza do rio, parando, Deus sabe como, nas pedras da margem.
A menina contemplou aquela figura à distância que a escuridão e a chuva permitiam às vistas humanas. O rio continuava a chocar-lhe contra as pedras, como se fosse um barco atracado.
Alguma coisa ali não fazia sentido.
Talvez a noite, que caíra precipitadamente, estivesse lhe pregando peças, mas a impressão que tinha era de que havia mais movimento naquele conjunto do que seria normal.
Então, sem mesmo saber ao certo por que razão o fazia, desceu do parapeito e se dirigiu às escadas da ponte.
Curiosa, andou cautelosamente pelas pedras escorregadias, tomando cuidado para não torcer o tornozelo e desabar na forte correnteza, que aumentava de volume por causa do violento temporal. Um encontro com aquelas águas seria morte certa e, ao menos agora, intempestiva. Queria desvendar o mistério do vulto.
Apesar dos passos cautelosos, a menina chegou rapidamente ao que lhe parecia um monte de trapos velhos e rasgados. Estava quase arrependida pela curiosidade tola, quando, ao se aproximar, um ruído baixo, estridente, atravessou-lhe o espírito de forma inesperada.
Apreensiva, agachou-se ao lado daquela forma estranha e, com as mãos trêmulas, afastou o tecido molhado. Sem se conter, soltou um grito e caiu para trás.
Aquele monte de panos velhos era, na verdade, uma vítima do temporal. Duas vítimas: uma mulher abraçada a um bebê, que emitia aquele fraco ruído.
A mãe tinha os olhos esgazeados, o corpo inchado e sem vida. Afogara-se. De alguma forma, o temporal jogara-lhe ao rio e, carregando o corpinho do filho, não tivera forças para salvar-se da correnteza. Mas e o bebê?
Tremia de frio. Os pequeninos dedos estavam arroxeados. Os olhos nem se abriam. Ainda tinha um pouco de força para chorar, mas não lhe restava muita reserva.
Por aproximadamente um segundo, o cérebro da menina conjurou tudo o que tinha: experiência, valores, receios... e fez os cálculos.
Com o coração a mil, ela tomou a criança nos braços e se dirigiu à ponte. Escorregava nas pedras, mas sabia que tinha pouco tempo. Precisava chegar ao hospital com o pequeno fardo, que não resistiria ao frio por mais tempo. Só Deus saberia o quanto ele viajara pelo rio, junto ao corpo da mãe.
Pensou em ligar para a ambulância, mas deixara o celular em casa. Não precisaria dele para fazer o que pretendia, quando saíra hoje à tarde. E agora estava a sós com o pequeno moribundo.
Rapidamente, ela subiu as escadas da ponte e correu em meio às ruas alagadas. O caminho mais próximo para o hospital se estendia por uns 3 km de onde estava. Não era longe. Mas beirava um trecho do rio que transbordava com certa facilidade. Se ela demorasse muito...
Sem pensar demais, correu chuva adentro. Saltava por galhos, esbarrava os pés em ratos sobreviventes e, de vez em quando, apoiava-se em alguma parede, para respirar. As casas em volta estavam todas sem luz e com as portas bem trancadas. Era uma cidade pequena, mas a menina sabia que, naquelas condições, dificilmente alguém lhe abriria a porta. E se abrisse, não poderia oferecer muita ajuda. Com aquele temporal derrubando galhos a torto e a direito e inundando as ruas, carro nenhum seria útil. Era melhor correr. Não podia perder tempo.
Enquanto corria, notava que a criança ficava cada vez mais quieta, mais abatida. Parava até de chorar. Quando isso acontecia, apertava-lhe de encontro ao seu corpo que, apesar de encharcado, agora até que produzia bastante calor, pela corrida. O bebê, então, voltava a se mexer e a chorar baixinho, a dizer que ainda vivia.
Algum tempo depois, não podia saber quanto já havia percorrido. Estava escuro, chovia torrencialmente e suas pernas doíam. Era tudo que sabia. E não podia parar.
Contudo, ao dobrar uma esquina particularmente escura, um ruído à frente gelou-lhe o sangue nas veias. Era barulho de água corrente. Bem forte.
A menina sentiu um peso desabar-lhe no estômago. Mesmo às escuras, percebeu que chegara tarde. O rio transbordara e tomara a rua. A correnteza era muito forte. Várias pessoas já foram arrastadas em outros temporais, tentando atravessar aquele trecho.
Como fora estúpida! Deveria ter adivinhado que não daria tempo. Seria mais válido percorrer o dobro da distância do que chegar até ali, nessas condições.
Seus pulmões e músculos ardiam. A respiração parecia inútil. Precisava descansar e não podia. O que fazer?
O hospital não estava distante. Mas, se quisesse chegar até ele, deveria passar pela correnteza, que ficava cada vez mais forte. A alternativa era voltar por onde viera e percorrer um caminho demasiado longo, que contornava todo aquele quarteirão alagado. Tomaria muito tempo e muita energia. Ela e o bebê não tinham nada disso.
Enquanto hesitava, a menina sentiu um leve toque em seu peito: delicado como o bater de asas de um pássaro.
A mãozinha do bebê lhe tocara no lado esquerdo, no coração. Ele estava vivo.
Um sopro de determinação invadiu-lhe o espírito. Em meio à catástrofe, aquele minúsculo ser entregava a vida às suas mãos. Adotara-lhe como mãe.
Em vão, as forças da tempestade vibraram no infinito, como uma fera a mostrar suas presas. A fúria da natureza é sempre avassaladora, aterrorizante. Mas, ali, de pé, como uma rocha a contemplar o tempo, estava um oponente terrível: a mãe. Que fera poderia se interpor no caminho?
Se tivesse que levantar um carro naquele momento, a menina tinha certeza de que conseguiria. A urgência de que estava possuída era irresistível. Precisava atravessar a correnteza. Aquela pequenina vida dependia disso. Então, deveria ser possível.
Estreitando o pequeno em seus braços, desferiu o primeiro passo como um golpe no infinito.
Descomunal foi a força que precisou despender. Nenhuma ciência no mundo poderia esclarecer porque não fora arrastada. Ela se desequilibrou, sentiu as pernas vacilarem, mas fincou os pés no chão com tanta firmeza, que mais pareciam raízes de uma árvore.
Em seguida, o segundo passo. O terceiro. O quarto.
Não se permitia pensar em absolutamente nada. Qualquer distração poderia ser fatal. Estava focada no objetivo: o próximo passo. E assim ela foi. Uma árvore que se mexia, desafiando a força titânica da natureza, cruzando a corrente com água pela cintura.
Galhos passavam-lhe pelas pernas, pequenos animais, lixo... Mas ela apenas se preocupava com o próximo passo. E o seguinte. Mais um. E outro.
Contudo, não obstante ser mãe, era humana. A respiração tornou-se mais difícil. Os braços, castigados pelo peso do bebê, ardiam tanto quanto as pernas, que ameaçavam ter cãibras. A cabeça ficou tonta; os olhos, turvos. Ela perdeu o equilíbrio por uma fração de segundo. Mas foi o suficiente para que o rio investisse toda a sua impiedade.
Ela foi arrastada. E engolida. Confusa e fraca, afundou nas águas revoltas.
Quando se abandonava ao determinismo das circunstâncias, o bebê apertou-lhe o pescoço com os bracinhos frágeis. A luta pela vida era igual para todos, ainda que com pouco ou nenhum discernimento. Ele queria viver. Ainda queria viver.
A adrenalina, já disparada pelo medo da própria morte, dobrou de intensidade ao receber esse novo toque da criaturinha que expirava lentamente. A menina ainda não fora vencida.
Após ser levada por alguns metros, ela se inclinou, mais agachada, e fincou novamente os dois pés no solo. Arrastada por mais uns centímetros, firmou a própria base e tentou se manter equilibrada. Do jeito que estava, conseguira segurar-se, mas ainda levava com água no rosto, afogando a criança em seu peito. Precisava se erguer.
Urrando de dor, exaustão e raiva, ela se levantou. Uma titã a surgir das profundezas da morte. Era o tudo ou nada. Era mãe - lutaria até o fim.
Novo passo. E outro. E outro.
Lentamente, a altura da água foi se reduzindo. Chegou aos joelhos, aos tornozelos, aos pés.
Ela passou. Uma olhada para trás e dois segundos de repouso foi o que se permitiu. A correnteza vibrava furiosamente, como se deplorasse a batalha perdida. Uma lufada de orgulho atravessou o coração da jovem guerreira. Vencera uma batalha terrível.
Entretanto, a guerra contra o relógio ainda não terminara.
Sem forças para correr, ela caminhou o mais rápido que podia. As pernas fraquejavam a cada cinco passos, então ela parava, respirava e seguia de novo. Como na batalha contra o rio: devagar, mas sem desistir.
Com o tempo, esquecera-se da criança em seus braços. Ela estava tão quieta, tão imóvel. Quem teria a coragem de verificar se estava viva ou não, àquela altura dos acontecimentos? Melhor deixar que as forças invisíveis desempenhassem sua mágica em segredo. Enquanto isso, a mãe faria a sua parte.
Finalmente, ao cabo de minutos dolorosamente longos, a fachada do hospital surgiu aos seus olhos. Disposta a doar tudo que tinha ao bebê, juntou o que restava de energia e desatou a correr. Nem mais conseguia respirar. Invadiu a recepção e simplesmente estendeu o precioso fardo a braços sem face que se materializaram na sua frente. Depois, tudo ficou escuro, enquanto seu corpo tombava no chão.

***

A manhã de Natal surgiu sem chuva, sem nuvens, nada. Apenas um belo sol brilhava, solitário e majestoso.
Pelas ruas, em meio às cicatrizes da devastação da noite anterior, a menina voltava para casa. Passara a noite no hospital, trazendo nos braços a marca do soro e dos medicamentos injetáveis.
Estava exausta. O corpo inteiro lhe doía, como se fora atropelada por um trator. Mas era no peito que sentia uma agonia terrível.
Todo seu esforço, toda a luta que empreendera, foi tudo em vão. O bebê chegou morto ao hospital. Inanição, hipotermia, qualquer coisa capaz de matar um ser tão indefeso.
Que tristeza lhe tomava o espírito! Por que tirar a vida de uma criatura tão tenra? Qual o motivo de ter nascido, se morreria em poucos meses?
Deprimida e revoltada, ela nem se dava conta de que, talvez, aquela vida tivesse recebido a missão de salvar outra. E, uma vez cumprido o objetivo, o pequeno herói precisava retornar ao lugar de onde viera.
Não, ela era muito jovem para pensar nisso. Tinha apenas muita frustração dentro de si. Mas não era tudo. A aventura da noite anterior lhe ensinara uma lição que jamais se apagaria: amor. Amor à vida.
Ao seu lado, caminhava uma mulher madura, de olhar severo. Tinha no rosto a marca de uma noite mal dormida, preocupada com a única filha. Pretendia se entender com ela assim que chegassem a casa.
Entretanto, de forma inesperada, a menina parou no meio da rua. A alguns metros, estava a ponte, onde toda a sua vida mudara de rumo. Tomada de coragem, resolveu que era melhor libertar o segredo tão temido, e agora tão belo, que trazia:
- Mãe, estou grávida.

Em outra parte da cidade, a população voltou a se reunir na praça. Estupefatos, os habitantes novamente contemplavam a escultura. Desta vez, porém, o motivo era outro. Apenas a cruz permanecia de pé. O temporal libertara o Cristo, sem deixar vestígios.

Feliz Natal.

domingo, 6 de dezembro de 2009

******




Estou sempre contigo!

Ainda que me maltrates e me deixes dezessete anos esperando pela tua vitória. Ainda que passeies pelas zonas obscuras da derrota, da crise,


Somos uma nação!


Uma nação em expectativa. Os pulmões, é claro!, preparados, mas o coração cauteloso, apesar de crente. Afinal, sonhamos tanto! Porém sabemos que os sonhos são feitos de cristal...

E como é frágil essa pedra! Com um susto, quase se partiu. A batalha começou e a nação foi golpeada. Por um momento, voltaste às trevas, sufocando o grito nos pulmões. Mas não estavas sozinho. Afinal,


Não importa onde estejas, sempre estarei contigo!


Com meu manto sagrado e minha bandeira na mão, como uma tocha, afastando de vez as sombras! Abrindo o peito ferido para que a esperança retorne.


Ânimo, gigante! Não fiques aí no chão. Teu lugar é o Olimpo! O topo! Teu coração tem milhões de pedaços. Milhões de estrelas pulsando, formando, enfim, tua luz, tua força! Não te entregues à derrota!

Essa é a nossa casa! O nosso reino de glória! Por aqui, já passaram deuses! Divindades absurdas em sua própria grandiosidade! Guerreiros que escreveram com encanto a tua história de amor ao triunfo!

Sim, Flamengo,


O Maraca é nosso!


E neste solo tão puro, regado a sangue, suor e lágrimas, nenhum inimigo te desfere um golpe, sem receber o dobro!

A nação, enfim, explode em fúria eufórica! O grito guardado escapa do peito como um trovão! O campo de batalha trepida, o ar se enche de magia! Nenhuma alma se contém!


Vai começar a festa!


Que o país se tinja de rubro-negro e participe da tua conquista! A caminhada foi árdua! A luta foi sangrenta! Mas, no fim, apenas tu permaneceste de pé...

Agora aproveita! Este momento, este Brasil - tudo! - é teu! É nosso!

De novo.

Pela sexta vez.

Então, com licença. É hora desta alma se declarar:

Eu te amo, MENGÃO DO MEU CORAÇÃO!!!!!!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ao Céu, obrigado!


Céu doce de novembro!

Tuas nuvens não me desenharam nada, mas compareceram!

É o que conta.

De que me serviriam formas copiadas? Apenas me ativariam memórias: lembranças de outros tempos, vividos com outrem.

Isso te limitaria, ó céu bendito! E como!

Aquilo que o homem não compreende, classifica! Cataloga, delimita, estabelece fronteiras!

Não, Céu! Permanece do jeito que estás: misterioso, ignorado. Pois grande tu és!

Não te ocupes em me dizer coisa alguma. De ti nada compreendo.

Apenas te desnuda aos meus olhos. Me deslumbra!

Tua presença, em silêncio, ignota, é um enigma. Mas é honesta! E adorada!

Não é essa a grandeza de tudo que é belo?

Espera!


Há uma sinfonia oculta nas ondas - doce melodia, suave harmonia.

O vai-e-vem do mar é como a respiração do mundo, em meditação. Sempre em equilíbrio, Sempre a vogar.

Nem mesmo a fúria é inconsequente. Tem ritmo. O trovão das ondas segue a batuta do maestro invisível.

Mas é na calmaria que reside o sublime.

A onda vem, beija a areia e volta, deixando o gosto salgado da saudade.

Mas ela retorna, sempre!, para um novo afago. Sem pressa ou demora - no tempo certo!

E o que na fúria é o retumbar de um trovão, no amor, é um sussurro. Um grave cochicho.

Sussurro, carinho, abandono.

Te amo, me beija, até logo.

Mas me espera! Eu volto!

Apenas para te beijar e de novo partir...

Assim é a felicidade.

Vem,

Afaga

E foge!

E enquanto ela retorna ao oceano, ao qual pertence, a tristeza a ti preenche e de ti rouba a luz, a vontade, a alma.

Mas, espera! A onda já vem beijar-te os pés.

sábado, 21 de novembro de 2009

Espelho


Acho que você sabe o que vim fazer aqui. Não há segredos entre nós. Ou melhor, conhecemos nossos segredos.

Estou com medo.

Não posso mais deixá-lo ficar. Não posso mais escondê-lo. Toda vez que sai do porão, corremos um risco enorme. Sabe que é verdade.

Não nego que nos divertimos juntos. Que o alimentei durante todos esses anos, porque gostava de você. Precisava de você. Mas tudo deve terminar agora. Quero que parta.

Vá de uma vez e não deixe vestígios!

Há tempos que ando confuso. Não sei quem é a face e quem é a máscara.

Acho que sou a máscara. Sim, eu sou. Mas preciso mudar a face. E devo fazê-lo neste momento. Quero me afivelar ao rosto - firme, bem firme - até moldá-lo.

As coisas se tornaram mais claras. Sempre achei que houvesse um quarto escuro - um porão! - em minha alma, onde a luz não penetrasse. Onde ficavam guardados os segredos... Onde ficava você.

Hoje, contudo, percebo que segurava uma lanterna e julgava que a luz fosse natural. Mas as pilhas estão acabando. E as trevas... Elas ganham força a cada segundo. Os segredos abandonaram o porão e querem me engolir!

O que posso fazer? Quebrar esse espelho e cortar os pulsos com os cacos?

Não seria justo. Seria uma covardia.

E se cortasse apenas um pulso...?

Acredite: matá-lo seria um grande bem! Mais que isso, seria honesto! Um último ato de honra...

Monstro! Foi bom vivermos juntos por tanto tempo! Se foi! Mas é hora de progressos. É hora de mudanças.

Não resista! Se não posso cortar-lhe o pulso, tenho um plano de emergência. Você é feito da noite, das trevas. Quem sabe eu possa trazê-lo à luz? Torná-lo a máscara e me esconder por baixo?

Sim, talvez seja o único jeito. A verdade é feita de fogo: abrasa tudo e permite um novo começo. Um novo plantio, com sementes mais saudáveis.

Talvez eu deva mesmo arrancá-lo das trevas e deixar que o vejam. Toda a sua monstruosidade, toda a hediondez, a podridão, a maldade... Meu Deus! Como você é sujo! E ainda se acha belo!

Maldito! Vá embora! Saia daqui! Minhas presas não mais terão seu veneno!

Sei que sou culpado! Vejo em seus olhos tudo que sou e que odeio! Mas devo ir em frente! A presença de Deus me apavora, mas me dá esperança. Preciso viver! Preciso vencer!

Pegue o que lhe pertence! Leve essas lembranças! Nosso passado era contado em uma ampulheta de lodo! De areia movediça! Leve tudo! Carregue consigo todo esse mal, que lhe faz bem!

Aqui, só a máscara sobreviverá! Só o véu! Ainda que sob a verdade... Ah, a verdade! Como me atormenta...

Não nego o meu pavor. A minha fraqueza.

Não, meu velho, não nego... Porém, devo seguir em frente.

Posso não saber o que sou, mas sei o que devo ser.

Não há mais lugar para nós dois.

A casa é minha agora.

Suma daqui.

Já é chegada a aurora.

Que a luz se faça sobre mim...

domingo, 1 de novembro de 2009

A um coração ferido

Tentaram plantar uma rosa em seu coração, mas as sementes eram de cravo.

Agora, que novo semeador se apresenta, outra vez você espera pela flor dos amantes.

Mas não se iluda.

Ainda que acerte desta vez, não basta lançar a semente e esperar que germine. É preciso cultivar a rosa. Oferecer-lhe o carinho da poda e o adubo do sentimento.

Ora, por que razão lhe seriam vermelhas as pétalas? É do seu peito que se nutre de vida. É dele que recebe o influxo que lhe faz desabrochar, encantadora.

Desta forma, se estéril o seu solo ficar, também a rosa morrerá. E, com ela, cairá sua alegria.

Mas não se preocupe.

O tempo a todo solo recupera.

Há sempre esperança na colheita do amor.

Também você lhe merece o perfume.

Vá.

E seja feliz!

sábado, 17 de outubro de 2009

No Tribunal

No Tribunal

Terrível é a dor da consciência ferida. Verdugo dos mais cruéis, espera que as luzes se apaguem, que as vozes silenciem e que tudo à volta fique em paz. E só então, a tortura começa.

Como um disco arranhado no fundo da mente, revivemos o ato culposo, à guisa de libelo acusatório. Réu, promotor, advogado de defesa... A cada instante, assumimos um papel distinto no próprio julgamento, inconscientemente imaginando se a toga do magistrado não nos deveria ser ofertada.

Condenarmo-nos? Provavelmente. A jurisprudência para o nosso caso é sempre desumana. Mas a que pena? Aí mora o abstrato. E é nesse ponto que o julgamento se interrompe. A defesa não chama outras testemunhas e nem mesmo reapresenta sua tese. Em vez disso, permite-nos enfrentar a argúcia e a insaciável fome da promotoria. Só nós, o réu, contra nós mesmos, o promotor.

Preciosos e doentios são os minutos que perdemos remoendo os erros. De maneira alguma, as pegadas serão refeitas. Os passos já foram dados.

Mas nossas ações devem ser entendidas como edificações. As positivas foram trabalhadas em concreto e são perenes, devendo fazer parte da paisagem mental. Um belo fundo no quadro da vida.
O erro, porém, é um castelo de areia, a ser demolido pela vaga do amanhã. Deixemos a obscuridade do ontem perecer ante o sol que se ergue.

Negligenciar uma falta é correr o risco de repeti-la. Mas apegar-se a ela é recusar-se uma nova oportunidade. Perdoar a si mesmo e decidir-se a não mais trilhar aquela senda espinhosa: tal a sentença.

Começar de novo é uma lição que o dia nos ensina silenciosamente.
Compreendamos a própria situação de seres em eterno aprendizado e procuremos extinguir tão-somente o erro futuro, educando o réu em paz.

O veredito? O futuro é sempre inocente.

Caso encerrado.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Adeus

(…) But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
William Butler Yeats (He Wishes for the Cloths of Heaven)

Quem já amou sabe que esse é o mais denso poema que jamais foi escrito - adeus! E pára por aí. Nada de rimas, quartetos, tercetos, alexandrinos... Só adeus(!) e sentimento.
Ah, mulher! Com teus olhos se vão a doçura e o mistério. Não mais a marola que me banhava e fugia. Não mais o perfume. Como a rosa que murcha ao peso do tempo, também tu secaste e me deixaste apenas os espinhos.
Chora, alma ferida, chora...
Mas o que faço com a vida que não mais viverei? Com os filhos que não tive? Não seria crime enterrá-los, tão jovens? Crueldade é o teu nome!
Mas sei bem que a culpa não te pertence. Afinal, não foi tua a invenção do amor. Mas foi nossa a tolice de amar. Foi nossa a ousadia da felicidade. Quanta ofensa cabe em um afago? Todo coração que ama faz jus ao castigo. Não se deserta impunemente da solidão. Leveza de espírito é sonegação de lágrimas à vida.
Porém, tudo se paga.
Então vai de uma vez! Que a dor assuma logo o teu posto! A advertência de Yeats foi justa, mas ignorada - meus sonhos foram esmagados sob teus pés! Os planos eram apenas ilusões. Farsas montadas para o divertimento alheio. Findo o espetáculo, vai-se a magia e ficam apenas os atores.
Mas quem ama e não sofre? E quem vive sem amar?
Meu peito pode estar ferido agora, mas o tempo também é implacável com a dor. Foi só o amor que pereceu. Estou vivo. A ferida irá se fechar. Nome nenhum causará comoção alguma. Nem música, filme, lembrança. O mar do amanhã destruirá toda edificação desabitada.
De tudo, enfim, só me restará o teu dorso, vazando com a maré.
Adeus.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Perdão

Chove lá fora. O tamborilar dos pingos parece uma canção de ninar.
Há horas, um menino rondava uma praça de alimentação. Queria vender canetas.
Seus cabelos molhados se mesclavam aos olhos sem vida.
Faltam três dias para o Dia das Crianças.
"O dinheiro não adianta. Não muda nada..."
"Compre uma caneta e ele nunca irá à escola".
O menino olhou em volta. Pessoas secas e bem vestidas sacodiam a cabeça negativamente, enquanto degustavam um lanche com que ele costumava sonhar. Tanta comida e seu estômago roncando.
Ninguém o acolheu. Todos se mantiveram fechados em suas roupas secas. Cabisbaixo, ele deu mais uma volta, antes de ir embora com a bolsa cheia de canetas.
Ah, criança! Se tu soubesses quão dura é a nossa vida... Nossas roupas estão secas, mas a alma está enlameada pelo descaso. Trazemos o estômago cheio, mas o peito, por vezes, vazio. Tu careces de comida. Nós, de sentimentos. Nossos olhos - tua pouca idade não permitiu que reparasses - são opacos como os teus.
Vai em paz. Sobrevive. E, se possível, perdoa-nos, pois não sabemos o que fazemos.

Ah, sim. Feliz Dia das Crianças...