sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ao Céu, obrigado!


Céu doce de novembro!

Tuas nuvens não me desenharam nada, mas compareceram!

É o que conta.

De que me serviriam formas copiadas? Apenas me ativariam memórias: lembranças de outros tempos, vividos com outrem.

Isso te limitaria, ó céu bendito! E como!

Aquilo que o homem não compreende, classifica! Cataloga, delimita, estabelece fronteiras!

Não, Céu! Permanece do jeito que estás: misterioso, ignorado. Pois grande tu és!

Não te ocupes em me dizer coisa alguma. De ti nada compreendo.

Apenas te desnuda aos meus olhos. Me deslumbra!

Tua presença, em silêncio, ignota, é um enigma. Mas é honesta! E adorada!

Não é essa a grandeza de tudo que é belo?

Espera!


Há uma sinfonia oculta nas ondas - doce melodia, suave harmonia.

O vai-e-vem do mar é como a respiração do mundo, em meditação. Sempre em equilíbrio, Sempre a vogar.

Nem mesmo a fúria é inconsequente. Tem ritmo. O trovão das ondas segue a batuta do maestro invisível.

Mas é na calmaria que reside o sublime.

A onda vem, beija a areia e volta, deixando o gosto salgado da saudade.

Mas ela retorna, sempre!, para um novo afago. Sem pressa ou demora - no tempo certo!

E o que na fúria é o retumbar de um trovão, no amor, é um sussurro. Um grave cochicho.

Sussurro, carinho, abandono.

Te amo, me beija, até logo.

Mas me espera! Eu volto!

Apenas para te beijar e de novo partir...

Assim é a felicidade.

Vem,

Afaga

E foge!

E enquanto ela retorna ao oceano, ao qual pertence, a tristeza a ti preenche e de ti rouba a luz, a vontade, a alma.

Mas, espera! A onda já vem beijar-te os pés.

sábado, 21 de novembro de 2009

Espelho


Acho que você sabe o que vim fazer aqui. Não há segredos entre nós. Ou melhor, conhecemos nossos segredos.

Estou com medo.

Não posso mais deixá-lo ficar. Não posso mais escondê-lo. Toda vez que sai do porão, corremos um risco enorme. Sabe que é verdade.

Não nego que nos divertimos juntos. Que o alimentei durante todos esses anos, porque gostava de você. Precisava de você. Mas tudo deve terminar agora. Quero que parta.

Vá de uma vez e não deixe vestígios!

Há tempos que ando confuso. Não sei quem é a face e quem é a máscara.

Acho que sou a máscara. Sim, eu sou. Mas preciso mudar a face. E devo fazê-lo neste momento. Quero me afivelar ao rosto - firme, bem firme - até moldá-lo.

As coisas se tornaram mais claras. Sempre achei que houvesse um quarto escuro - um porão! - em minha alma, onde a luz não penetrasse. Onde ficavam guardados os segredos... Onde ficava você.

Hoje, contudo, percebo que segurava uma lanterna e julgava que a luz fosse natural. Mas as pilhas estão acabando. E as trevas... Elas ganham força a cada segundo. Os segredos abandonaram o porão e querem me engolir!

O que posso fazer? Quebrar esse espelho e cortar os pulsos com os cacos?

Não seria justo. Seria uma covardia.

E se cortasse apenas um pulso...?

Acredite: matá-lo seria um grande bem! Mais que isso, seria honesto! Um último ato de honra...

Monstro! Foi bom vivermos juntos por tanto tempo! Se foi! Mas é hora de progressos. É hora de mudanças.

Não resista! Se não posso cortar-lhe o pulso, tenho um plano de emergência. Você é feito da noite, das trevas. Quem sabe eu possa trazê-lo à luz? Torná-lo a máscara e me esconder por baixo?

Sim, talvez seja o único jeito. A verdade é feita de fogo: abrasa tudo e permite um novo começo. Um novo plantio, com sementes mais saudáveis.

Talvez eu deva mesmo arrancá-lo das trevas e deixar que o vejam. Toda a sua monstruosidade, toda a hediondez, a podridão, a maldade... Meu Deus! Como você é sujo! E ainda se acha belo!

Maldito! Vá embora! Saia daqui! Minhas presas não mais terão seu veneno!

Sei que sou culpado! Vejo em seus olhos tudo que sou e que odeio! Mas devo ir em frente! A presença de Deus me apavora, mas me dá esperança. Preciso viver! Preciso vencer!

Pegue o que lhe pertence! Leve essas lembranças! Nosso passado era contado em uma ampulheta de lodo! De areia movediça! Leve tudo! Carregue consigo todo esse mal, que lhe faz bem!

Aqui, só a máscara sobreviverá! Só o véu! Ainda que sob a verdade... Ah, a verdade! Como me atormenta...

Não nego o meu pavor. A minha fraqueza.

Não, meu velho, não nego... Porém, devo seguir em frente.

Posso não saber o que sou, mas sei o que devo ser.

Não há mais lugar para nós dois.

A casa é minha agora.

Suma daqui.

Já é chegada a aurora.

Que a luz se faça sobre mim...

domingo, 1 de novembro de 2009

A um coração ferido

Tentaram plantar uma rosa em seu coração, mas as sementes eram de cravo.

Agora, que novo semeador se apresenta, outra vez você espera pela flor dos amantes.

Mas não se iluda.

Ainda que acerte desta vez, não basta lançar a semente e esperar que germine. É preciso cultivar a rosa. Oferecer-lhe o carinho da poda e o adubo do sentimento.

Ora, por que razão lhe seriam vermelhas as pétalas? É do seu peito que se nutre de vida. É dele que recebe o influxo que lhe faz desabrochar, encantadora.

Desta forma, se estéril o seu solo ficar, também a rosa morrerá. E, com ela, cairá sua alegria.

Mas não se preocupe.

O tempo a todo solo recupera.

Há sempre esperança na colheita do amor.

Também você lhe merece o perfume.

Vá.

E seja feliz!