terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Montanha

Lutamos tão ferozmente pela vida
Buscando alimento, amor, esperança
Mas quando a batalha enfim cansa
E nos sentamos à beira da estrada
É que chega a luz

Não nos enganemos
A maior dificuldade é entender na vida
Que o mundo gira à nossa revelia
Obedecendo a leis que não fizemos
E das quais vira e mexe discordamos

Em horas tais
Por mais que façamos no bem
E nos concentremos de todo nesse fim
Brotando na alma afinal a devoção, a virtude e a fé
A montanha alheia a tudo lá permanece

O que me resta é crer que esses montes
Não se derrubam, nem se evitam: não se mexem!
Tem que passar mesmo é por cima
Que é compreendendo pedra a pedra
Que só e finalmente a gente cresce
Foi o tempo em que eu fechava os olhos
Costurava uma gaivota com o próprio tempo
E do espaço rasgava o céu pra que ela voasse bem

As horas escorriam por entre meus dedos
Que se divertiam enquanto eu pulava na chuva, corria atrás de bola
Caía de amores por quem nem me conhecia

E sabia de tudo!
Desafiava o que fosse preciso e o impreciso era eu mesmo
Que de tão ocupado com a vida sequer sabia o que era a vida

Capitão de um barco ao largo sem espias ou velas nem leme
Filhote querido de algum anjo
Que de tanto amor se divertia só de olhar

Mas a ferrugem dos anos corroeu-me tudo
Levou de mim toda aquela sabedoria e me deixou
A fórmula da razão e a dureza do esquecimento

Só que a alma não se rouba e nem se vende
E é nela que me dói sempre que possível
A saudade que o anjo tem desse tempo de criança

Claustrofobia

Angústia sem explicação
Presente como a alma
Ferindo como lâmina
E o pior é o motivo: nada
Um repente como fome
Voracidade que não se define
Apenas diz do que não é

E se misturam haustos de luxúria
Impulsos de brutalidade
Um vácuo de pulmões cheios de uma
Vida algo quase irreal, onírica
Onírica tal e qual a própria palavra
Um mero onanismo gramatical
Mas presente

Solidamente presente
Que sobe pelas veias
E explode pela alma adentro
Uma angústia de condenação
A força que enfim submete o preso
No instante exato em que ele
Deixa de riscar a parede

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O Cofre

Lá no canto (bem no canto) da minha solidão
Jaz esquecida e empoeirada uma velha caixa de sapatos
Repleta de sorrisos e sussurros
Corpos magnéticos e abafados gemidos

E alguns gestos singelos também
Que de tão despretensiosos pararam a Terra
Ou a fizeram andar mais depressa
Desgovernada

Enigmas
Inevitáveis pausas na vida
Tesouros em que ninguém bota preço
Ou tempo

Mas lá no fundo
Sob todas as joias do acervo
Estamos eu e você - escondidos
Pairando no olhar um do outro

Aquele momento em que roubamos a eternidade
E a enterramos no quintal do coração