E vem o passado com seus espectros. Sombras e vultos povoam o quarto, agarrando seus pés, puxando as cobertas, correndo os dedos gélidos por sua testa... Diligentemente velando sua falta de sono.
As correntes do pretérito chumbam-lhe a alma na cama, trazendo-lhe ecos dos seus crimes. Acusações se abatem sobre sua consciência, em um looping mental torturante. Mostram-lhe as vítimas que fez. Corações cuja dor não pode apagar, pois não lhe toleram sequer a presença. Suas desculpas, mesmo adoçadas pelo mel da contrição, apenas deslizam como veneno aos ouvidos.
A única dignidade que lhes pode oferecer é a própria distância.
Então desiste finalmente de dormir e caminha até a janela. Disseram-lhe que o céu é a melhor arma contra a claustrofobia do espírito.
A princípio, foi uma boa resolução. Uma leve brisa o acolhe maternalmente. Ele suspira.
Algumas nuvens, contudo, parecem tentar enegrecer ainda mais a noite. Seriam capatazes do demônio da culpa? Expirando desalentado, ele afasta essa idéia da cabeça. Que está dizendo afinal? As nuvens apenas cumprem o seu papel. É ele quem está no escuro...
Então um brilho chama a sua atenção. É quase um diamante perdido em um poço de petróleo. Aquela pequena estrela perfura o véu das nuvens e faz sua luz chegar até ele.
Mas que diabos está fazendo consigo mesmo? Errou sim. Arrependido está. Que fazer, se não o aceitam perdoar agora; se não lhe permitem curar as feridas causadas?
Também ele já sangrou tantas vezes em silêncio. Chorou, tendo apenas as próprias mãos como testemunhas e se guiou por oceanos de tormenta, remando seu pequeno coração. E ainda está aqui.
Elas também estarão. Se ele carrega um mundo nos ombros, há quem sustente o universo inteiro. A estrela está de prova. A cada primavera, as flores estão de prova. Todos ficarão bem. E quando lhe permitirem, fará sua penitência. Por enquanto, só lhe resta esperar. Só lhe resta o tempo.
Corajoso, ele se volta contra as sombras:
- Afastai-vos! – Ordena-lhes – Há sempre uma luz acesa na casa de Deus!
A estrela pisca ao receber seu beijo de agradecimento, e sorri ao vê-lo fechar os olhos e tirar a própria alma para dançar.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Uma janela esparramada pelo mar
O sopro que me abraça no alto do morro
A vida efêmera da última das rosas do buquê
Mais o cheiro fresco do café, na manhã que se abre
Um banho bem quente, sem prazo, pela noite que me encerra
E o sorriso gratuito de uma criança desconhecida
Isso é Deus!
Mas o teu rosto na moldura do meu dia
E o teu corpo me cobrindo pela vida
São o templo de uma religião só minha
O sopro que me abraça no alto do morro
A vida efêmera da última das rosas do buquê
Mais o cheiro fresco do café, na manhã que se abre
Um banho bem quente, sem prazo, pela noite que me encerra
E o sorriso gratuito de uma criança desconhecida
Isso é Deus!
Mas o teu rosto na moldura do meu dia
E o teu corpo me cobrindo pela vida
São o templo de uma religião só minha
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Saudade
O dia começou cansado. Mais uma noite lutando com as trevas. Mas o abrir dos olhos significa outra vitória. Estou ganhando, por enquanto.
Café com sono. Banho de relógio. Pé na rua.
Metrô insuportavelmente cheio e quente, apesar do clima agradável do lado de fora. Pessoas rudes em roupas elegantes se bracejando à procura de um lugar, de uma saída, de uma briga. Ser carregado pela multidão. Distribuir desculpas pelos cotovelos. Voltar à luz do sol.
O escritório tinha a mesma cara de ontem - a de sempre. A atmosfera pesada, alergicamente entediante, envolveu-me num sopro de perenidade. Pensei que eu fosse uma estátua de chafariz, um busto de antigamente, um nome de rua. Era quinta-feira de alguma semana... e poderia ser qualquer dia.
Os papéis importantes se misturavam à inutilidade que reinava no propósito ausente. Eu estava no automatismo diário de um relógio impreciso, cuja bateria se acabava a pouco e pouco, mas a carga ainda era muita.
Com desejo de um isqueiro, virei muitas páginas. Assinei meu nome. Carimbei meu cargo.
Mais um dia...
E aí teu nome apareceu. De repente. Nem sei de onde. Apenas algumas letras em um papel antigo, como uma fotografia em preto-e-branco.
E toda aquela engrenagem que me comprimia passou a ser efêmera. A realidade se tornou a poesia da minha lembrança e a fantasia do meu desejo.
Revivi tuas mãos nas minhas, teu cheiro em minhas roupas, o sussurro em meus ouvidos com os lábios na minha orelha, a língua em meu pescoço, o arfar de teus gemidos na minha alma... E a fome, ardendo, nesses olhos que me devoravam.
Onde estás, minha luz, esperança do meu dia? Não aqui, não além. Apenas ontem.
É pouco. Muito pouco pra quem ama. Nada para quem deseja.
Mas é como dizem: “amanhã é um outro dia”...
Café com sono. Banho de relógio. Pé na rua.
Metrô insuportavelmente cheio e quente, apesar do clima agradável do lado de fora. Pessoas rudes em roupas elegantes se bracejando à procura de um lugar, de uma saída, de uma briga. Ser carregado pela multidão. Distribuir desculpas pelos cotovelos. Voltar à luz do sol.
O escritório tinha a mesma cara de ontem - a de sempre. A atmosfera pesada, alergicamente entediante, envolveu-me num sopro de perenidade. Pensei que eu fosse uma estátua de chafariz, um busto de antigamente, um nome de rua. Era quinta-feira de alguma semana... e poderia ser qualquer dia.
Os papéis importantes se misturavam à inutilidade que reinava no propósito ausente. Eu estava no automatismo diário de um relógio impreciso, cuja bateria se acabava a pouco e pouco, mas a carga ainda era muita.
Com desejo de um isqueiro, virei muitas páginas. Assinei meu nome. Carimbei meu cargo.
Mais um dia...
E aí teu nome apareceu. De repente. Nem sei de onde. Apenas algumas letras em um papel antigo, como uma fotografia em preto-e-branco.
E toda aquela engrenagem que me comprimia passou a ser efêmera. A realidade se tornou a poesia da minha lembrança e a fantasia do meu desejo.
Revivi tuas mãos nas minhas, teu cheiro em minhas roupas, o sussurro em meus ouvidos com os lábios na minha orelha, a língua em meu pescoço, o arfar de teus gemidos na minha alma... E a fome, ardendo, nesses olhos que me devoravam.
Onde estás, minha luz, esperança do meu dia? Não aqui, não além. Apenas ontem.
É pouco. Muito pouco pra quem ama. Nada para quem deseja.
Mas é como dizem: “amanhã é um outro dia”...
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Amigo
Que bom ouvir sua voz, como sempre. Estamos distantes, eu sei. Mas nunca houve um “perto” que nos bastasse. Entre um sorriso e outro, a vida é apenas uma grande saudade.
É culpa da correria, não concorda? Meu Deus, que pressa! Cada segundo me joga cobranças. Acho que estou sempre em dívida com alguém, com Deus, comigo... E então eu deixo você ir. Deixo de ligar, sumo por uns tempos... Mas não se engane. Estou monitorando seus olhos à distância. E toda vez que seu coração esquentou um pouquinho – assim, de repente mesmo! – fui eu que lancei um beijo ao vento e mandei entregar na hora.
Estou perto, ao alcance de uma lágrima. Então jamais hesite em me ligar, gritar, mandar e-mail. Toda vez que a dor cruzar o céu e o inverno trouxer um gelo de solidão, estarei aqui, de vigília.
Apenas me chame. Pela voz ou pelo olhar, eu entenderei. E peço que não tente me poupar da sua dor, porque é muito pior pensar que você sofreu e não fiz nada. Acredite em mim, é bem pior. Estou contando anos como quem coleciona garrafas vazias embaixo da mesa. Se eu não fizer nada por você, o que terei feito da vida? Não me poupe. Não chore sem mim.
Gostaria de arrancar a sua dor e torná-la minha, sempre minha, só minha. Contudo, sou apenas um homem. Nada posso de sobrenatural. Não vou segurar o sol e fazer sua vida um belo dia de verão – e Deus sabe que era esse o meu desejo.
Mas vou ficar ao seu lado até a noite acabar.
Porque você mora em um castelo de flores, construído e cultivado a cada gesto de amizade que me semeou no peito. E aqui ficará, enquanto as areias do tempo escorrerem pelos meus pés.
Feliz Dia do Amigo.
É culpa da correria, não concorda? Meu Deus, que pressa! Cada segundo me joga cobranças. Acho que estou sempre em dívida com alguém, com Deus, comigo... E então eu deixo você ir. Deixo de ligar, sumo por uns tempos... Mas não se engane. Estou monitorando seus olhos à distância. E toda vez que seu coração esquentou um pouquinho – assim, de repente mesmo! – fui eu que lancei um beijo ao vento e mandei entregar na hora.
Estou perto, ao alcance de uma lágrima. Então jamais hesite em me ligar, gritar, mandar e-mail. Toda vez que a dor cruzar o céu e o inverno trouxer um gelo de solidão, estarei aqui, de vigília.
Apenas me chame. Pela voz ou pelo olhar, eu entenderei. E peço que não tente me poupar da sua dor, porque é muito pior pensar que você sofreu e não fiz nada. Acredite em mim, é bem pior. Estou contando anos como quem coleciona garrafas vazias embaixo da mesa. Se eu não fizer nada por você, o que terei feito da vida? Não me poupe. Não chore sem mim.
Gostaria de arrancar a sua dor e torná-la minha, sempre minha, só minha. Contudo, sou apenas um homem. Nada posso de sobrenatural. Não vou segurar o sol e fazer sua vida um belo dia de verão – e Deus sabe que era esse o meu desejo.
Mas vou ficar ao seu lado até a noite acabar.
Porque você mora em um castelo de flores, construído e cultivado a cada gesto de amizade que me semeou no peito. E aqui ficará, enquanto as areias do tempo escorrerem pelos meus pés.
Feliz Dia do Amigo.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Pecado Original
Por alguma razão desconhecida, um dia pararam as máquinas do céu. E tudo ficou tão quieto e suspenso, que se podia ouvir o coração dos anjos, aflitos e perdidos.
Mas antes que o ócio gerasse desordem, O Pai, tão calmo, pegou da matéria-prima e examinou-a contra a luz.
Marcando-lhe as arestas, sob o atento olhar de cada anjo-construtor, pegou o cinzel e começou a trabalhar.
Quando terminou, deixou a obra no centro da sala e sem dizer palavra alguma retirou-se.
Encantados, os anjos deram-se as mãos em torno da estátua e se entenderam apenas com o olhar: sem máquinas, deviam talhar eles mesmos uma pedra, conforme o Pai o fizera.
Mas como copiar aquela obra-prima? Nenhum deles possuía talento o bastante.
A única saída deveria ser o trabalho em equipe.
E assim, com o produto das divinas mãos ao centro da sala, toda a falange dos céus trabalhou horas a fio, tentando, e tentando e tentando copiar-lhe a magia. Exaustos, após várias tentativas infrutíferas, resolveram que atingiram o melhor resultado que podiam e decidiram encerrar as atividades.
Um deles, contudo, o mais aplicado, antes de sair teve uma ideia inocente. Arrastou o imperfeito até que ficasse de frente à obra divina, esperando ingenuamente que a beleza lhe passasse por contágio, por autoinspiração.
Despediu-se com um beijo no ar e uma prece de sussurro...
E foi assim que surgimos - eu e você, como dois resultados de uma falha do céu. Os seus contornos foram obra direta d'O Artista e é por isso que a própria graça se espanta quando a encontra.
Mas quanto a mim, ah! - o mistério selou meu destino.
Aquela noite se foi e a manhã me encontrou de joelhos aos seus pés.
Admirados, os outros anjos perguntaram ao pequeno:
"Cupido, Cupido... o que foi que você fez?"
Mas ele nunca soube o que dizer.
Mas antes que o ócio gerasse desordem, O Pai, tão calmo, pegou da matéria-prima e examinou-a contra a luz.
Marcando-lhe as arestas, sob o atento olhar de cada anjo-construtor, pegou o cinzel e começou a trabalhar.
Quando terminou, deixou a obra no centro da sala e sem dizer palavra alguma retirou-se.
Encantados, os anjos deram-se as mãos em torno da estátua e se entenderam apenas com o olhar: sem máquinas, deviam talhar eles mesmos uma pedra, conforme o Pai o fizera.
Mas como copiar aquela obra-prima? Nenhum deles possuía talento o bastante.
A única saída deveria ser o trabalho em equipe.
E assim, com o produto das divinas mãos ao centro da sala, toda a falange dos céus trabalhou horas a fio, tentando, e tentando e tentando copiar-lhe a magia. Exaustos, após várias tentativas infrutíferas, resolveram que atingiram o melhor resultado que podiam e decidiram encerrar as atividades.
Um deles, contudo, o mais aplicado, antes de sair teve uma ideia inocente. Arrastou o imperfeito até que ficasse de frente à obra divina, esperando ingenuamente que a beleza lhe passasse por contágio, por autoinspiração.
Despediu-se com um beijo no ar e uma prece de sussurro...
E foi assim que surgimos - eu e você, como dois resultados de uma falha do céu. Os seus contornos foram obra direta d'O Artista e é por isso que a própria graça se espanta quando a encontra.
Mas quanto a mim, ah! - o mistério selou meu destino.
Aquela noite se foi e a manhã me encontrou de joelhos aos seus pés.
Admirados, os outros anjos perguntaram ao pequeno:
"Cupido, Cupido... o que foi que você fez?"
Mas ele nunca soube o que dizer.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
O que não tive mas é meu
Às vezes, de tão firme e simples, a vontade se confunde em nostalgia, tal que os desejos perfurem o peito como fatos, numa saudade boa de tempos nunca vistos.
À mente vem aquela praia de nossos belos anos, de areia macia e rodeada por coqueiros bem fartos, onde nossas almas se tocavam dia-a-dia, como eu: sol(!), em ti, meu mar.
Erguia-me sobre teu corpo fluido, na aurora do anseio de te encobrir no tênue lençol de névoa, perdidos ambos no segredo de um beijo bem longo.
Ainda em êxtase, de tuas águas emergia contrafeito, à maneira de quem se vai a viver o dia, já ardendo por voltar ao braço amado.
E tudo o que mais queria ao retornar era afogar a febre da distância, mergulhando novamente em teu profundo seio. Abrir caminho para a noite de meus olhos bem fechados, para não ver as horas deslizarem tão depressa. E apenas – só isso! - me perder do mundo, sempre que teu corpo me guardava.
Mas quanta falta que me faz esse tempo! Sempre chegarmos, eu e tu, um ao outro. E todo nosso propósito: vivermos um no outro. Só não termos o próprio tempo, que a noite sempre em dia se transforma e é preciso partir...
Mas o tempo... Não é mesmo para que alguém o tenha e se dê conta disso.
À mente vem aquela praia de nossos belos anos, de areia macia e rodeada por coqueiros bem fartos, onde nossas almas se tocavam dia-a-dia, como eu: sol(!), em ti, meu mar.
Erguia-me sobre teu corpo fluido, na aurora do anseio de te encobrir no tênue lençol de névoa, perdidos ambos no segredo de um beijo bem longo.
Ainda em êxtase, de tuas águas emergia contrafeito, à maneira de quem se vai a viver o dia, já ardendo por voltar ao braço amado.
E tudo o que mais queria ao retornar era afogar a febre da distância, mergulhando novamente em teu profundo seio. Abrir caminho para a noite de meus olhos bem fechados, para não ver as horas deslizarem tão depressa. E apenas – só isso! - me perder do mundo, sempre que teu corpo me guardava.
Mas quanta falta que me faz esse tempo! Sempre chegarmos, eu e tu, um ao outro. E todo nosso propósito: vivermos um no outro. Só não termos o próprio tempo, que a noite sempre em dia se transforma e é preciso partir...
Mas o tempo... Não é mesmo para que alguém o tenha e se dê conta disso.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Lonely day
Hoje acordei com os olhos ainda fechados, querendo sentir algo mais - além da ausência.
São dias assim que me deixam de mão no queixo, olhando um horizonte perdido no tempo, à espera de um sorriso.
Não é nada afinal. Nada demais. Nenhuma doença crônica, febre, depressão ou covardia. É o calafrio. O bater dos dentes quando a brisa da solidão me engolfa a alma.
E é então que percebo as algemas que me submetem à falta de fantasia, ao império de uma realidade que mais parece um sonho tedioso e infinitamente pessoal.
Deus! São dias assim que me fazem querer voar pra bem longe de mim mesmo e bem juntinho dela. Pra pegá-la em meus braços e sentir seus lábios na minha testa. Deslizar seu corpo até que minha boca morda bem de leve o seu queixo e minhas mãos a conheçam novamente.
E isso apenas aumenta mais a noção de que estou só, no mundo desse momento, nesse meu inverno.
Minha saída é me abraçar ao violão e dedilhar algumas lágrimas, sussurrando aos meus próprios ouvidos a enorme e vazia dor da solidão.
Tentando sufocar a vontade, tão irresistível quanto impossível, de voar feito um passarinho e libertar meu canto doce bem ao pé do seu ouvido.
São dias assim que me deixam de mão no queixo, olhando um horizonte perdido no tempo, à espera de um sorriso.
Não é nada afinal. Nada demais. Nenhuma doença crônica, febre, depressão ou covardia. É o calafrio. O bater dos dentes quando a brisa da solidão me engolfa a alma.
E é então que percebo as algemas que me submetem à falta de fantasia, ao império de uma realidade que mais parece um sonho tedioso e infinitamente pessoal.
Deus! São dias assim que me fazem querer voar pra bem longe de mim mesmo e bem juntinho dela. Pra pegá-la em meus braços e sentir seus lábios na minha testa. Deslizar seu corpo até que minha boca morda bem de leve o seu queixo e minhas mãos a conheçam novamente.
E isso apenas aumenta mais a noção de que estou só, no mundo desse momento, nesse meu inverno.
Minha saída é me abraçar ao violão e dedilhar algumas lágrimas, sussurrando aos meus próprios ouvidos a enorme e vazia dor da solidão.
Tentando sufocar a vontade, tão irresistível quanto impossível, de voar feito um passarinho e libertar meu canto doce bem ao pé do seu ouvido.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Passei o dia a te esquecer
Acordei cansado, mal dormindo de não pensar em ti
E caminhei por ruas sem nome, olhando casas sem número
E não pensando em ti
Mas me peguei aos prantos
Meus prantos de ti
E olhei com raiva o telefone
Do qual não queria uma ligação tua
Mas que sempre me fisgava o olhar
Ao sabor de um silêncio de coisas mortas
Da lenta asfixia da esperança
Escrevi apagando versos que outra vez te fiz
E vou deixando de escrever a qualquer fim
E de cantar e amar a vida simples e bela das rosas
Porque me perdi na ferrugem de mim mesmo
Porque passo os dias a me esquecer de ti
Até recomprei meu livro mais querido
Que te esquecendo o havia perdido
E logo o abri na página mais lida
Naquela que me fazia sorrir
Mas então sofri... me falou de ti.
Marquei nela o nome que meus lábios te deram
Pra me guardar que ali só há um beijo de adeus
O livro, é claro, perdi-o novamente
Que é pra ver se um dia de fato te esqueço
Sem pra isso pensar em ti o dia inteiro.
E caminhei por ruas sem nome, olhando casas sem número
E não pensando em ti
Mas me peguei aos prantos
Meus prantos de ti
E olhei com raiva o telefone
Do qual não queria uma ligação tua
Mas que sempre me fisgava o olhar
Ao sabor de um silêncio de coisas mortas
Da lenta asfixia da esperança
Escrevi apagando versos que outra vez te fiz
E vou deixando de escrever a qualquer fim
E de cantar e amar a vida simples e bela das rosas
Porque me perdi na ferrugem de mim mesmo
Porque passo os dias a me esquecer de ti
Até recomprei meu livro mais querido
Que te esquecendo o havia perdido
E logo o abri na página mais lida
Naquela que me fazia sorrir
Mas então sofri... me falou de ti.
Marquei nela o nome que meus lábios te deram
Pra me guardar que ali só há um beijo de adeus
O livro, é claro, perdi-o novamente
Que é pra ver se um dia de fato te esqueço
Sem pra isso pensar em ti o dia inteiro.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Você
No meio de um dia completamente monótono, eu pude vê-la ao meu lado, unida a um raio de sol. E quando meus olhos se habituaram à sua luz, percebi a graça em cada minúcia de seu corpo, em cada gesto... mesmo quando com uma cuidadosa displicência, prendia os cabelos e os soltava em seguida. Só para prendê-los novamente e depois tornar a soltá-los.
Ou mordia os lábios sedutoramente distraída. E me ignorava, perversa, com o olhar mais terno.
Deus fez a mulher como a suprema arte do universo - inimitavelmente bela, capaz de furtar a existência de um homem com um sorriso e ainda assim fazê-lo crer-se dono de um milagre.
Pois a você, que me escravizou quando se fez minha, ofereço este humilde presente. Corra até a janela e receba a lua que mandei lhe entregar. E não se preocupe com o embrulho: apenas sorria, que o laço da noite será desfeito.
Ou mordia os lábios sedutoramente distraída. E me ignorava, perversa, com o olhar mais terno.
Deus fez a mulher como a suprema arte do universo - inimitavelmente bela, capaz de furtar a existência de um homem com um sorriso e ainda assim fazê-lo crer-se dono de um milagre.
Pois a você, que me escravizou quando se fez minha, ofereço este humilde presente. Corra até a janela e receba a lua que mandei lhe entregar. E não se preocupe com o embrulho: apenas sorria, que o laço da noite será desfeito.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Separação
Eu te amei com fome e volúpia
Como quem devorasse uma vida de mel
Escorrendo abaixo pelo peito
E agora me despeço
Na secura de quem lentamente morre
Afogado em lembranças
Mas a saudade, como é dor,
Tem a incrível força de rachar ao meio
O tempo e cada fração sua
Todo segundo que me sangra
Estou mais morto
E a morte (de fato!): perdida no infinito
Como quem devorasse uma vida de mel
Escorrendo abaixo pelo peito
E agora me despeço
Na secura de quem lentamente morre
Afogado em lembranças
Mas a saudade, como é dor,
Tem a incrível força de rachar ao meio
O tempo e cada fração sua
Todo segundo que me sangra
Estou mais morto
E a morte (de fato!): perdida no infinito
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
O Presente
Meu anjo,
Todos temos sonhos. Especialmente quando jovens. Tudo nos parece possível, quando ainda estamos em franco processo de autoconstrução.
É a faculdade almejada; o casamento idealizado; a construção calma e consciente da família, da casa, da vida.
Entretanto, enquanto projetamos, vamos agindo. Descobrindo o mundo e construindo a nós mesmos e a própria sorte. Mas nós, aprendizes de engenheiros, nem sempre aplicamos nossas atitudes na direção de nossos planos. Nossa "obra" pode sofrer alterações.
Algumas são simples. Podemos adaptá-las ou nos adaptarmos a elas facilmente, enquanto o concreto vai amadurecendo. Porém, certos imprevistos são realmente cruciais. Abalam todo o sentido e o futuro da nossa edificação. Nossos alicerces parecem inúteis.
Sendo mais direto: que hora para ficar grávida, não é mesmo?
Seus estudos ainda estão incompletos; o emprego não é o ideal; o parceiro não lhe oferece a segurança desejada... Talvez a família, que sempre representou um apoio, não lhe possa ofertar o concurso necessário. O amanhã não é mais uma porta florida, mas um peso horrível em seus ombros.
Acuada, pode ser que considere os conselhos criminosos de amigos inconsequentes; de outras mulheres, que consideram que autoafirmação e liberdade justificam um assassinato. "Você é dona do próprio corpo!", dizem, "Da própria vida e do seu futuro!".
Mas, cá entre nós, se tudo isso lhe pertence, o que é de seu filho? Também você já não teve o tamanho dele? Sua mãe não era dona do próprio corpo e da vida?
Não se revolte. A questão aqui não é de certo ou errado. É de vida ou morte.
Não pense, tampouco, que vou me utilizar de artifícios, de ilusões. Seu filho não será o novo Einstein. Ou Nelson Mandela, Madre Teresa. Não será uma fonte constante de alegria em sua vida. Não seguirá seus conselhos ou projetos.
Você quer um médico ou advogado. Ele vai ser músico, poeta, qualquer coisa que lhe desagrade ou decepcione. Palavra de filho: desapontar os pais é o que fazemos de melhor. E não é só isso. As noites, sorria!, jamais serão tranquilas. Primeiro, a saúde infantil. Depois, as aventuras da adolescência; por fim e pelo resto da vida, as incertezas da fase adulta...
Qual a vantagem disso? Não sei, confesso.
Mas observe um filho e a mãe. Aprecie a cumplicidade existente no olhar. A ternura. Quanto amor em um abraço. Quanta magia em um beijo.
Ninguém é tão duro que não se emocione com uma dupla tão sublime. A mulher, com o filho no colo, é uma rainha. Todos ajudam, abrem espaço, formam um cortejo... Ou então desandam a brincar com a criança. Para muitos, o sorriso do seu filho será um raiar do dia. A presença de Deus em um momento de aflição.
Enfim, ele vai crescer, trilhar o próprio caminho, ganhar o mundo. Mas onde quer que ele esteja, uma ligação profunda vai marcá-lo bem no coração. Jamais será qualquer um. Será sempre filho. Seu filho.
Toda semente vale a pena do cultivo. Deixe-a crescer. Pode ser que não chegue a lhe agradecer por isso. Mas você nunca vai se arrepender por ter-lhe dado o pequeno presente da vida.
Todos temos sonhos. Especialmente quando jovens. Tudo nos parece possível, quando ainda estamos em franco processo de autoconstrução.
É a faculdade almejada; o casamento idealizado; a construção calma e consciente da família, da casa, da vida.
Entretanto, enquanto projetamos, vamos agindo. Descobrindo o mundo e construindo a nós mesmos e a própria sorte. Mas nós, aprendizes de engenheiros, nem sempre aplicamos nossas atitudes na direção de nossos planos. Nossa "obra" pode sofrer alterações.
Algumas são simples. Podemos adaptá-las ou nos adaptarmos a elas facilmente, enquanto o concreto vai amadurecendo. Porém, certos imprevistos são realmente cruciais. Abalam todo o sentido e o futuro da nossa edificação. Nossos alicerces parecem inúteis.
Sendo mais direto: que hora para ficar grávida, não é mesmo?
Seus estudos ainda estão incompletos; o emprego não é o ideal; o parceiro não lhe oferece a segurança desejada... Talvez a família, que sempre representou um apoio, não lhe possa ofertar o concurso necessário. O amanhã não é mais uma porta florida, mas um peso horrível em seus ombros.
Acuada, pode ser que considere os conselhos criminosos de amigos inconsequentes; de outras mulheres, que consideram que autoafirmação e liberdade justificam um assassinato. "Você é dona do próprio corpo!", dizem, "Da própria vida e do seu futuro!".
Mas, cá entre nós, se tudo isso lhe pertence, o que é de seu filho? Também você já não teve o tamanho dele? Sua mãe não era dona do próprio corpo e da vida?
Não se revolte. A questão aqui não é de certo ou errado. É de vida ou morte.
Não pense, tampouco, que vou me utilizar de artifícios, de ilusões. Seu filho não será o novo Einstein. Ou Nelson Mandela, Madre Teresa. Não será uma fonte constante de alegria em sua vida. Não seguirá seus conselhos ou projetos.
Você quer um médico ou advogado. Ele vai ser músico, poeta, qualquer coisa que lhe desagrade ou decepcione. Palavra de filho: desapontar os pais é o que fazemos de melhor. E não é só isso. As noites, sorria!, jamais serão tranquilas. Primeiro, a saúde infantil. Depois, as aventuras da adolescência; por fim e pelo resto da vida, as incertezas da fase adulta...
Qual a vantagem disso? Não sei, confesso.
Mas observe um filho e a mãe. Aprecie a cumplicidade existente no olhar. A ternura. Quanto amor em um abraço. Quanta magia em um beijo.
Ninguém é tão duro que não se emocione com uma dupla tão sublime. A mulher, com o filho no colo, é uma rainha. Todos ajudam, abrem espaço, formam um cortejo... Ou então desandam a brincar com a criança. Para muitos, o sorriso do seu filho será um raiar do dia. A presença de Deus em um momento de aflição.
Enfim, ele vai crescer, trilhar o próprio caminho, ganhar o mundo. Mas onde quer que ele esteja, uma ligação profunda vai marcá-lo bem no coração. Jamais será qualquer um. Será sempre filho. Seu filho.
Toda semente vale a pena do cultivo. Deixe-a crescer. Pode ser que não chegue a lhe agradecer por isso. Mas você nunca vai se arrepender por ter-lhe dado o pequeno presente da vida.
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