quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Presente

Meu anjo,

Todos temos sonhos. Especialmente quando jovens. Tudo nos parece possível, quando ainda estamos em franco processo de autoconstrução.
É a faculdade almejada; o casamento idealizado; a construção calma e consciente da família, da casa, da vida.
Entretanto, enquanto projetamos, vamos agindo. Descobrindo o mundo e construindo a nós mesmos e a própria sorte. Mas nós, aprendizes de engenheiros, nem sempre aplicamos nossas atitudes na direção de nossos planos. Nossa "obra" pode sofrer alterações.

Algumas são simples. Podemos adaptá-las ou nos adaptarmos a elas facilmente, enquanto o concreto vai amadurecendo. Porém, certos imprevistos são realmente cruciais. Abalam todo o sentido e o futuro da nossa edificação. Nossos alicerces parecem inúteis.

Sendo mais direto: que hora para ficar grávida, não é mesmo?

Seus estudos ainda estão incompletos; o emprego não é o ideal; o parceiro não lhe oferece a segurança desejada... Talvez a família, que sempre representou um apoio, não lhe possa ofertar o concurso necessário. O amanhã não é mais uma porta florida, mas um peso horrível em seus ombros.

Acuada, pode ser que considere os conselhos criminosos de amigos inconsequentes; de outras mulheres, que consideram que autoafirmação e liberdade justificam um assassinato. "Você é dona do próprio corpo!", dizem, "Da própria vida e do seu futuro!".

Mas, cá entre nós, se tudo isso lhe pertence, o que é de seu filho? Também você já não teve o tamanho dele? Sua mãe não era dona do próprio corpo e da vida?

Não se revolte. A questão aqui não é de certo ou errado. É de vida ou morte.

Não pense, tampouco, que vou me utilizar de artifícios, de ilusões. Seu filho não será o novo Einstein. Ou Nelson Mandela, Madre Teresa. Não será uma fonte constante de alegria em sua vida. Não seguirá seus conselhos ou projetos.

Você quer um médico ou advogado. Ele vai ser músico, poeta, qualquer coisa que lhe desagrade ou decepcione. Palavra de filho: desapontar os pais é o que fazemos de melhor. E não é só isso. As noites, sorria!, jamais serão tranquilas. Primeiro, a saúde infantil. Depois, as aventuras da adolescência; por fim e pelo resto da vida, as incertezas da fase adulta...

Qual a vantagem disso? Não sei, confesso.

Mas observe um filho e a mãe. Aprecie a cumplicidade existente no olhar. A ternura. Quanto amor em um abraço. Quanta magia em um beijo.

Ninguém é tão duro que não se emocione com uma dupla tão sublime. A mulher, com o filho no colo, é uma rainha. Todos ajudam, abrem espaço, formam um cortejo... Ou então desandam a brincar com a criança. Para muitos, o sorriso do seu filho será um raiar do dia. A presença de Deus em um momento de aflição.

Enfim, ele vai crescer, trilhar o próprio caminho, ganhar o mundo. Mas onde quer que ele esteja, uma ligação profunda vai marcá-lo bem no coração. Jamais será qualquer um. Será sempre filho. Seu filho.

Toda semente vale a pena do cultivo. Deixe-a crescer. Pode ser que não chegue a lhe agradecer por isso. Mas você nunca vai se arrepender por ter-lhe dado o pequeno presente da vida.

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