sexta-feira, 25 de maio de 2012

Mensageiro


Me deu vontade de escrever bonito
Criar belas imagens no coração da gente
Tecer alguns sonhos pra enfeitar essa realidade tão cinza
- Meu esforço de herói do meu próprio dia

Me deu vontade de criar a diferença
De inventar um novo todo diferente
Pra surpreender as velhas avós de olhar cansado e sofrido
Parado em alguma década perdida

Uma novidade boa é tudo que eu queria
Pra trazer na bolsa como lembrança da viagem
Que gostaria de ter feito ao paraíso

Onde o Pai me pegou no colo
E me olhou nos olhos, dizendo:
- Meu filho, meu filho... Tudo ficará bem

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Elegia ao Poeta

Sujeito bacana.

Quando nos conhecemos, ele já era poeta. Acho mesmo que já nascera assim. Tanto que todos o chamavam de "O Poeta", embora jamais o tenham visto escrever um poema sequer.

O mais próximo disso que testemunhei foi quando ele mijou versos nas águas de um lago. Estava em transe. Absorto numa febril criatividade. Quando terminou, perguntei-lhe o propósito daquilo, se nenhuma palavra ficaria pra posteridade. Ele me respondeu que a posteridade buscaria outra beleza. Aquela já tivera o seu momento e deveria ficar no passado. Em seguida me jogou na cara um punhado daquela água onde havia mijado. Filho da puta. Foi a primeira das muitas vezes em que saímos na porrada.

Engraçado que ele era um palito, só que batia feito um animal. Mas eu sempre dava o último soco. No começo, até me vangloriava disso.

Ele apenas sorria.

Com o passar do tempo, percebi a verdade. Quando lhe perguntei por que me enfiava a mão e depois baixava a guarda, ele apenas disse: “o último verso deve ferir o poeta”.

Sujeito maluco.

Tratava mulheres de razoável respeito com total desacato e se ajoelhava aos pés de uma prostituta vesga, chamada Zulmira.

Uma vez eu arrumei um encontro duplo. Estava saindo com uma colega de trabalho e combinamos ir a um bar. Mas ela queria que eu levasse um amigo para tentar desencalhar uma prima dela. Por Deus, eu juro que a última pessoa que me veio à mente foi o Poeta, mas nenhum de meus outros conhecidos estava disponível.

Mas tive uma surpresa. Ele se comportou adoravelmente. Um gentleman. Fiquei tão orgulhoso que tomei coragem para deixá-lo a sós com a prima: tirei minha dama pra dançar.

Não demorou muito e escutei um burburinho. Quando olhei pra mesa, estava o Poeta sozinho, de pé, com o rosto encharcado de vodka e o zíper da calça aberto...

No caminho de volta, (é claro que também acabei sozinho naquela noite), enquanto me segurava pra não dar uma porrada naquele infeliz, eis que ele para no meio do caminho e se abaixa, aos prantos. Quando cheguei perto pra ver o que era, havia uma rosa no chão – enfeitada para presente, mas largada no chão, já moribunda. O Poeta pegou-a com um carinho sacerdotal e abraçou-a como a um bebê, enquanto murmurava entre os dentes:

- Nenhuma rosa deve morrer sem plateia...

Só voltei a encontrá-lo uns três dias depois. Não quis lhe perguntar nada, mas tenho quase certeza de que velou a rosa até que murchasse completamente.

Sujeito inédito.

E o trabalho? Até hoje não sei ao certo como ele vivia. Passava uns apertos de grana, pedia emprestado, mas sempre pagava no prazo que dava. Zulmira estava cansada de por o atendimento na conta. Por ela, então, o desgraçado assaltaria um banco pra não ficar lhe devendo. E bem que poderia ser um ladrão de bancos. Ou assassino de aluguel.

Sei apenas que o seu maior desejo era morrer de cirrose ou sífilis. Por nenhum sentido trágico. Segundo ele, seria apenas lógico, pela vida que levava. Mas creio que temia ser tragado pelo tédio e, assim, queria morrer jovem.

O problema é que o desgraçado tinha uma saúde de ferro. Só pegava gonorreia e gripe. Aliás, nem gripe.

E desse jeito acabou chegando à madureza e à velhice. Não veio sífilis, nem cirrose, mas saudade. Foi duro vê-lo chorar a morte de Zulmira e de tantas outras rosas de que se fez de plateia.

Ah, as flores. Sempre fiéis companheiras. O asilo em que foi morar possuía um jardim muito belo, com até mesmo um roseiral. E era ali que passava a maior parte do dia e, não raro, da noite.

Pensei que fosse chegar o tédio enfim. Mas nem isso. O Poeta tinha um remédio infalível: vivia constantemente apaixonado. Jurava que Zulmira tinha virado um passarinho e que vinha lhe visitar todas as manhãs.

- Te juro! – ele dizia – Ele tem os olhos de Zulmira!

Eu apenas concordava pra não criar desassossego - fazia tempo que não nos dávamos umas boas porradas. Mas a ideia do passarinho realmente era ambígua. Senilidade ou simplesmente o Poeta?

Porém eu já era velho demais para tentar entendê-lo. Deixei pra lá, assim como as enfermeiras não ligavam pras suas declarações de amor e convites a uma literal sacanagem.

Sujeito devasso.

Até o fim.

Um belo dia, quando fui visitá-lo, encontrei o quarto vazio. Saí a inquirir o povo todo, mas ninguém sabia do seu paradeiro. Indicaram-me, é claro, o roseiral, pois vivia lá. Contudo, tive um mau pressentimento. O Poeta nunca se atrasava na minha hora de visita...

Quando o encontrei deitado na relva, já estava morto. E nu - debaixo do roseiral. Eu tive que sorrir. Uma plateia de rosas me pareceu bem adequada à ocasião.

Então me sentei ao seu lado e chorei de uma saudade terrível. O mundo jamais seria o mesmo sem aquele defeito simpático. Sem o meu amigo. Sem o Poeta.

Mas quando abri os olhos para partir, vi saltitar na relva um passarinho, piando bem de leve, como a não querer acordar o defunto. Por fim, deu um último pulinho e pousou no peito do Poeta. Cantou como um anjo e se foi para o céu.

Pode ter sido a emoção do momento, mas eu juro que o bichinho era meio vesgo.






terça-feira, 8 de maio de 2012

Tantas lágrimas espalhamos sobre mil e mais dores
E em todo canto enxergamos a sombra do que existe
Sorrindo sempre de nossas vãs tentativas
De acreditar que há um sentido em tudo isso

E os anos passam como estações atrás dos olhos
Nascendo, ardendo, se desfolhando e morrendo
Enquanto pensamos que amanhã seremos heróis
Ou talvez daqui a um minuto, a qualquer momento

Mas um dia acordamos árvores
Alguma coisa mudou - envelhecemos
E apenas criamos mais e mais raízes

Por isso me peça pra correr, voar ou mesmo desaparecer
Mas não me diga pra viver unitário - só eu!
Que o pouco tanto que me importa não pode se perder

sexta-feira, 4 de maio de 2012

"Devolva-me"

No ondular de um veleiro vogando no mar da memória

A canção me volta aos ouvidos qual gaivota perdida


Por mais que o tempo me tenha dividido e mudado

Ainda sobrevive uma parte que guardei só minha


- Um dia eu velejei pra longe com fome de ser livre

E me abracei ao mar com saudades tuas