Por alguma razão desconhecida, um dia pararam as máquinas do céu. E tudo ficou tão quieto e suspenso, que se podia ouvir o coração dos anjos, aflitos e perdidos.
Mas antes que o ócio gerasse desordem, O Pai, tão calmo, pegou da matéria-prima e examinou-a contra a luz.
Marcando-lhe as arestas, sob o atento olhar de cada anjo-construtor, pegou o cinzel e começou a trabalhar.
Quando terminou, deixou a obra no centro da sala e sem dizer palavra alguma retirou-se.
Encantados, os anjos deram-se as mãos em torno da estátua e se entenderam apenas com o olhar: sem máquinas, deviam talhar eles mesmos uma pedra, conforme o Pai o fizera.
Mas como copiar aquela obra-prima? Nenhum deles possuía talento o bastante.
A única saída deveria ser o trabalho em equipe.
E assim, com o produto das divinas mãos ao centro da sala, toda a falange dos céus trabalhou horas a fio, tentando, e tentando e tentando copiar-lhe a magia. Exaustos, após várias tentativas infrutíferas, resolveram que atingiram o melhor resultado que podiam e decidiram encerrar as atividades.
Um deles, contudo, o mais aplicado, antes de sair teve uma ideia inocente. Arrastou o imperfeito até que ficasse de frente à obra divina, esperando ingenuamente que a beleza lhe passasse por contágio, por autoinspiração.
Despediu-se com um beijo no ar e uma prece de sussurro...
E foi assim que surgimos - eu e você, como dois resultados de uma falha do céu. Os seus contornos foram obra direta d'O Artista e é por isso que a própria graça se espanta quando a encontra.
Mas quanto a mim, ah! - o mistério selou meu destino.
Aquela noite se foi e a manhã me encontrou de joelhos aos seus pés.
Admirados, os outros anjos perguntaram ao pequeno:
"Cupido, Cupido... o que foi que você fez?"
Mas ele nunca soube o que dizer.
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