E vem o passado com seus espectros. Sombras e vultos povoam o quarto, agarrando seus pés, puxando as cobertas, correndo os dedos gélidos por sua testa... Diligentemente velando sua falta de sono.
As correntes do pretérito chumbam-lhe a alma na cama, trazendo-lhe ecos dos seus crimes. Acusações se abatem sobre sua consciência, em um looping mental torturante. Mostram-lhe as vítimas que fez. Corações cuja dor não pode apagar, pois não lhe toleram sequer a presença. Suas desculpas, mesmo adoçadas pelo mel da contrição, apenas deslizam como veneno aos ouvidos.
A única dignidade que lhes pode oferecer é a própria distância.
Então desiste finalmente de dormir e caminha até a janela. Disseram-lhe que o céu é a melhor arma contra a claustrofobia do espírito.
A princípio, foi uma boa resolução. Uma leve brisa o acolhe maternalmente. Ele suspira.
Algumas nuvens, contudo, parecem tentar enegrecer ainda mais a noite. Seriam capatazes do demônio da culpa? Expirando desalentado, ele afasta essa idéia da cabeça. Que está dizendo afinal? As nuvens apenas cumprem o seu papel. É ele quem está no escuro...
Então um brilho chama a sua atenção. É quase um diamante perdido em um poço de petróleo. Aquela pequena estrela perfura o véu das nuvens e faz sua luz chegar até ele.
Mas que diabos está fazendo consigo mesmo? Errou sim. Arrependido está. Que fazer, se não o aceitam perdoar agora; se não lhe permitem curar as feridas causadas?
Também ele já sangrou tantas vezes em silêncio. Chorou, tendo apenas as próprias mãos como testemunhas e se guiou por oceanos de tormenta, remando seu pequeno coração. E ainda está aqui.
Elas também estarão. Se ele carrega um mundo nos ombros, há quem sustente o universo inteiro. A estrela está de prova. A cada primavera, as flores estão de prova. Todos ficarão bem. E quando lhe permitirem, fará sua penitência. Por enquanto, só lhe resta esperar. Só lhe resta o tempo.
Corajoso, ele se volta contra as sombras:
- Afastai-vos! – Ordena-lhes – Há sempre uma luz acesa na casa de Deus!
A estrela pisca ao receber seu beijo de agradecimento, e sorri ao vê-lo fechar os olhos e tirar a própria alma para dançar.
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