O dia começou cansado. Mais uma noite lutando com as trevas. Mas o abrir dos olhos significa outra vitória. Estou ganhando, por enquanto.
Café com sono. Banho de relógio. Pé na rua.
Metrô insuportavelmente cheio e quente, apesar do clima agradável do lado de fora. Pessoas rudes em roupas elegantes se bracejando à procura de um lugar, de uma saída, de uma briga. Ser carregado pela multidão. Distribuir desculpas pelos cotovelos. Voltar à luz do sol.
O escritório tinha a mesma cara de ontem - a de sempre. A atmosfera pesada, alergicamente entediante, envolveu-me num sopro de perenidade. Pensei que eu fosse uma estátua de chafariz, um busto de antigamente, um nome de rua. Era quinta-feira de alguma semana... e poderia ser qualquer dia.
Os papéis importantes se misturavam à inutilidade que reinava no propósito ausente. Eu estava no automatismo diário de um relógio impreciso, cuja bateria se acabava a pouco e pouco, mas a carga ainda era muita.
Com desejo de um isqueiro, virei muitas páginas. Assinei meu nome. Carimbei meu cargo.
Mais um dia...
E aí teu nome apareceu. De repente. Nem sei de onde. Apenas algumas letras em um papel antigo, como uma fotografia em preto-e-branco.
E toda aquela engrenagem que me comprimia passou a ser efêmera. A realidade se tornou a poesia da minha lembrança e a fantasia do meu desejo.
Revivi tuas mãos nas minhas, teu cheiro em minhas roupas, o sussurro em meus ouvidos com os lábios na minha orelha, a língua em meu pescoço, o arfar de teus gemidos na minha alma... E a fome, ardendo, nesses olhos que me devoravam.
Onde estás, minha luz, esperança do meu dia? Não aqui, não além. Apenas ontem.
É pouco. Muito pouco pra quem ama. Nada para quem deseja.
Mas é como dizem: “amanhã é um outro dia”...
Nenhum comentário:
Postar um comentário