Cá estou com meus demônios. Comecei assim um poema que não terminou bem. Era um soneto. Batizei-o “Cedo ou Tarde”, em homenagem às tentações que nos espreitam. A idéia até que era boa. O poeta, nem tanto.
Agora a madrugada se intromete, ao som de Beethoven, enquanto aprecio a minha insônia. Ah, companheira! Tu e os demônios são fiéis na danação. Uma hora tu vens. Cedo ou tarde eles vencem. Hoje, vieste.
Sei que não posso reclamar. É graças a ti que às vezes escrevo. Ou leio mais um pouco, ou assisto de novo àquele filme cujo início jamais alcancei. Chega a ser divertido.
O chato da insônia, contudo, é imaginar com quem mais ela dorme, a lasciva! Quantas outras janelinhas estão a competir com as estrelas? Quantos não estão a escrever ou a compor? Talvez Beethoven também se deitasse com ela.
Mas me preocupo mesmo é com outros amantes. Certamente alguém não dorme agora, por fome – sua ou dos seus. O estômago é uma sirene pela noite.
Vou à janela espairecer e olhar as estrelas. Está frio lá fora. Especialmente na calçada onde se deita gente como eu.
Penso, então, no gelo de alma, na fome de paz, de amor.
Nesse momento, alguns sofrem de angústia. Consciência culpada. Medo. Solidão. Talvez chore a mãe do rapaz que ainda não voltou para casa. Talvez não chore, mas certamente o espera acordada. Há quem vigie o leito de um hospital. Outro corre ao telefone.
Quanta insônia no mundo, enquanto reclamo da minha! O que me conforta um pouco é saber que há quem não durma, porque pensa em resolver o problema dessa gente sofrida. Desse povo cujo sono é um pedaço de pão, uma cama, um cobertor. Uma bolsa de sangue, um órgão, um telefonema. Salário, amor, amizade, paz, filhos, pais...
Ah, minha amiga! Gruda nesse! É ele que vela por quem sofre. E não te preocupes com a solidão, caso a dor escape do mundo. Sempre haverá os que não dormem, por mera paixão.
Pronto! Não disse? Chegaram os demônios.
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