Hoje acordei de luto.
Quando passa, a ceifeira sempre me põe a pensar. Desta vez viajei até minha infância perdida. Aos verões passados em Araruama.
A cada manhã, um mergulho na lagoa, de máscara e pés-de-pato (!), caçando tesouros distraídos ou ritualísticos (Iemanjá, perdão!). Ou apenas pedras e conchas mesmo. Tudo me servia. Nada prestava.
E quando o sol diminuía o maçarico, futebol da molecada! Disputas acirradas e emocionantes! O tira-teima nos lances duvidosos eram altos palavrões. Não raro alguns socos e pontapés também. Mas nunca o rancor. No dia seguinte, estávamos todos lá novamente. Pés descalços, calções surrados, bola vazia, chuva...
Nem sequer nos dávamos conta de toda a natureza que nos cercava. Da fartura nos coqueiros que freqüentemente assaltávamos, da límpida água da lagoa, da brisa refrescante que reinava pelas tardes afora.
E aquela fatídica noite, quando a luz acabou no condomínio inteiro? Sentamo-nos ao meio-fio, admirados com todas as estrelas que desafiavam o negrume noturno. E procuramos o Cruzeiro do Sul e as Três-Marias, amando todas as outras que se punham no caminho. Que presente essa noite bendita! Deu-me sonhos de beleza e infinito. Foi meu berço de poeta.
E o futuro? Era tudo tão possível que nem pensávamos nisso. O futuro era a próxima aventura, nada mais. Qual criança tem limites?
Mas o amanhã chegou em dias de cúmulos-nimbos. A criança feliz foi sepultada ao me dar à luz. Sete palmos de realidade; caixão de cimento.
A ti, moleque, meu luto. A mim, os pêsames...
E a saudade que me pega em lágrimas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário