quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Verdadeira Vergonha

Encontrei um velho amigo no Dia dos Pais. Trabalhava de garçom. Conversamos um pouco e logo me perguntou se não tinha filhos. Conhecemo-nos há tempos, mas nossas famílias ficam a portas de distância. Respondi que ainda não os tinha. Ele, por sua vez, contava com dois.

- O mais velho tem quatorze anos e já me dá um trabalho danado! Pelo menos o moleque é estudioso. E eu sempre digo: "estuda, rapaz! Pra não virar garçom!"

Confesso minha parva ingenuidade para a vida.

Em época de eleições, quando árvores genealógicas se infiltram no poder do país, quais antigos clãs, ou bandas ou um câncer, ouso indagar se, por trás das grades da impunidade sem-vergonha, esses pais dizem: "seja firme, rapaz! Pra não virar corrupto!"

Ainda não atingi a maturidade a que os anos me obrigam. Sonho, amo, idealizo. Não esperava que a vida forçasse um homem probo a ensinar o filho a ter vergonha da sua origem humilde. A pior escravidão faz com que nós, cativos, acreditemos na sua ideologia. Mas não. Não quero mais.

Não quero dizer a meu filho que minha profissão não presta, enquanto outros ensinam os seus a roubar.

Ainda sonho com a derradeira Lei Áurea. Vejo um mundo pautado pela virtude que se é, e não pelo poder que se aparenta. Preciso acreditar nisso.

Julguem-me um tolo, um histrião. Aceito qualquer veredicto. E compreendo as decepções que me aguardam. Mas prefiro morrer infeliz, aos prantos, a viver com um podre sorriso, criando filhos como abutres.

Um comentário:

  1. o seu poema me lembrou muito dessa música: http://letras.terra.com.br/chico-buarque/85972/

    Bjs da Ling.

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